Vilões, Equipamentos e Condições: Gaia Playtest

Sejam bem vindos 2d6 + bônus leitores! Eu sou o Joka, da Espaço Mítico. E hoje trago a continuação dos relatos da experiência do playtest do Gaia RPG. O foco do nosso relato é a Criação de Vilões; lidando com Equipamentos e como funciona o sistema de Condições — além de trazer dicas de narração que vocês podem aplicar em outros jogos.

Gaia Playtest: Criando cenários colaborativos | Exploração e Combate

O que é o Gaia Playtest RPG?

Para quem está chegando agora, o Gaia RPG é uma produção autoral do Tio Lipe que escreve na coluna Santuário do Mestre e é membro do Mundos Colidem. O Gaia é um RPG nos moldes dos JRPGs de mesa, como Ryuutama e de vídeo game, como Final Fantasy. Tendo inspiração em RPGs como D&D, 13ª Era, FATE Básico e FAE, Dungeon World, Open Legend e o próprio Ryuutama.

Ele é um jogo que utiliza a licença OGL; ou seja, possui uma licença que permite usá-lo e modificá-lo livremente. Além disso, por necessitar apenas de dados comuns (d6) para as suas rolagens, o Gaia RPG torna-se extremamente acessível.

O objetivo desta série de artigos é apresentar como o jogo funciona em mesa. Todo o playtest tem ocorrido de 15 em 15 dias nos domingos durante um evento local promovido pelo Mundos Colidem, chamado de Encontros Mundos Colidem de RPG. Então as regras e o que acontece durante as sessões de jogo serão misturadas, de forma que vocês poderão ler sobre a campanha e as regras ao mesmo tempo.

Equipamentos Gaia Playtest RPG
Equipamentos em Ryuutama

Níveis de Recursos e Equipamentos

Em nossa última sessão de jogo, o grupo descobriu a existência dos chamados Cristais de Mana Fundamentais. Estes cristais fazem parte da essência mágica do mundo e são os únicos capazes de tirar Gaia (a deusa desaparecida do cenário) de seu sono. Os jogadores se reuniram na taverna local, pertencente a um dos personagens jogadores e discutiram como encontrariam tais objetos.

Em meio ao debate sobre o que fazer, resolveram que iriam explorar uma antiga passagem anã. Ela estava escondida na mina que eles haviam adentrado na última sessão. E posteriormente, iriam fazer uma visita à vila dos Filhos de Luna. O intuito é participar do ritual da Lua Vermelha, que acontecerá na vila e que envolve um dos cristais. Sabendo de antemão que teriam que realizar uma longa viagem, eles resolveram se preparar de maneira apropriada, comprando provisões e equipamentos. E é aí que entra uma das características muito interessante do Gaia RPG: Recursos.

Os recursos são uma característica do personagem que representa bens, dinheiro e objetos que a personagem possui. Diz também quão bem de vida ela está e o que pode adquirir, funcionando como uma generalização de seu poder aquisitivo. Assim, o jogador não vai precisar contar moedas e joias que carrega. Geralmente, todo personagem em Gaia começa com nível em recursos 2 (também chamado de NR 2). Mas este valor pode variar entre 0 a 5, de acordo com os resultados das aventuras. O NR funciona da seguinte forma:

  • Se o valor do equipamento ou serviço que você está adquirindo tem valor menor que seu NR, você pode adquirir quantas vezes quiser.
  • Se o valor do equipamento ou serviço for igual ao seu valor de NR, você só pode adquirir uma vez até que tenha se passado 1 semana ou você tenha adquirido mais recursos. Caso queira comprar mais de uma vez algo de igual valor a seu NR na mesma semana, seu NR desce 1 ponto. Ex: NR 2 cai para NR 1.
  • Se o valor do equipamento ou serviço for maior que 1 ponto de seu NR, você pode adquirir uma vez, mas seu valor de NR desce 1 ponto. Você não pode comprar coisas que possuam 2 ou mais pontos de recursos que você possua.

Não apenas os recursos dos personagens são bastante simplificados, mas também seus equipamentos. Todo personagem carrega pelo menos dois tipos: a Ração e seus Itens.

Uma ração é o equivalente à quantidade de água e comida necessária para o personagem sobreviver por um dia. Os itens são todos aqueles equipamentos que aventureiros utilizam em seu dia a dia durante suas jornadas e explorações, como corda, tochas, gazuas, etc. Quando um personagem precisa de uma tocha, o jogador anuncia o uso de um item e para que ele vai ser usado, subtraindo o valor de seus itens carregados.

Muitas vezes durante suas aventuras, os jogadores terão que sacrificar itens que carregam para serem bem sucedidos ou como penalização por uma falha num teste. Outras vezes, só será possível fazer um teste se houver o gasto de itens, como necessitar de corda com gancho para escalar um muro escorregadio. Por isso, os jogadores deverão gerenciar seus recursos disponíveis se quiserem ter sucesso em suas aventuras.

Principalmente, porque existe um limite no peso que o personagem consegue carregar, baseado em sua força. Esse valor vai precisar dar espaço para armas e armaduras também, restringindo assim a quantidade de rações e itens disponíveis para a personagem. Para evitar este problema, os jogadores podem comprar montarias. Elas aumentam o deslocamento em viagens e permitem carregar uma quantidade consideravelmente maior de equipamentos para as personagens — o que é uma opção a se considerar durante jornadas muito longas.

Isso fez com que meu grupo rapidamente decidisse comprar montarias e colocar nelas grandes quantidades de equipamentos, garantindo que terão itens e rações disponíveis em casos de urgência — que foi o que aconteceu durante a viagem até a passagem anã em uma mina, quando foram atacados por um dragão, que devorou uma das montarias dos personagens. Enquanto o monstro estava ocupado comendo, eles aproveitaram para fugir e apressar o passo, o que acabou forçando-os a gastarem mais rações e itens.

Condições do Gaia Playtest RPG
Condições em D&D 5e

Condições

As condições são debilidades que os personagens jogadores podem adquirir durante suas aventuras, que podem ocorrer como fruto de ataques de inimigos; devido a falhas em testes de jornada; falhas em algum teste em que fazia sentido ao narrador impor uma condição; ou ainda por usarem toda a essência de seus personagens.

Existe uma condição para cada atributo dos personagens:

  • Fraco: recebe -2 em Força.
  • Restrito: recebe -2 em Destreza.
  • Exausto: recebe -2 em Constituição.
  • Abalado: recebe -2 em Inteligência.
  • Confuso: recebe -2 em Sabedoria.
  • Inseguro: recebe -2 em Carisma.

Condições se dividem entre temporária, como um personagem derrubado que fica com a condição restrito até se levantar, ou duradoura, em que ele só pode se curar após descanso e testes de recuperação. Elas podem ocorrer pelos mais variados motivos e são uma das maneiras mais importantes de penalizar jogadores por falhas nos testes.

Por exemplo:

Ellie, a druida do grupo, está tentando acalmar um urso para evitar um combate desnecessário durante a perigosa viagem que está fazendo. Ela rola os dados e infelizmente, tira uma falha. Por fazer sentido à história e acreditar que um combate contra um urso seria uma perda de tempo, o narrador aplica um sucesso com custo. Ellie convence o urso a deixar o grupo em paz, mas não antes de quase atacá-la e deixa-la insegura de suas habilidades como druida. Ellie ficará com a condição até que consiga recupera-la durante a viagem, com a ajuda de seus amigos e de sua força de vontade.

Esta mecânica serve para manter a tensão na sessão de jogo de Gaia sempre crescente, obrigando os jogadores a serem mais cuidadosos e a gastar recursos com mais frequência. Nas jogadas de viagem, o ideal é que o narrador alterne as falhas dos jogadores com perda de itens/rações com condições — mas sempre respeitando o que acontece na ficção.

Além da preocupação com seus equipamentos e condições, os jogadores também precisam tomar cuidado com seu gasto de Essência. Ela é a medida de energia mágica que um personagem possui. Usada para lançar magias ou ativar habilidades especiais, como a fúria. Se um personagem tiver sua essência zerada, adquire uma condição em seu maior atributo. Muitos jogadores vão utilizar a essência para garantirem um bônus de +1 nos testes que venham a fazer no jogo, o que é chamado de usar Determinação (em um outro post irei abordar isso com mais cuidado).

Assim, quando um personagem jogador quiser garantir uma chance maior em um teste decisivo de algo que estava tentando, ele pode gastar essência — além de também servir para amenizar os efeitos negativos de quaisquer condições que venha a adquirir durante o jogo.

Foi algo que os meus jogadores passaram a usar com bastante frequência, principalmente aqueles que não dependiam tanto da essência para ativarem poderes.

Vilões

Uma das coisas que mais gosto quando narro Gaia é o processo de construção de antagonistas, por ser muito fácil e rápido — excelente para quem costuma narrar aventuras com muito improviso, pois consegue criar em pouquíssimo tempo adversários desafiantes para seus jogadores.

Possui uma tabela simples, contendo vigor, valores de ataque, de perícias e dano médio de adversários. Basta alguns ajustes nestes valores e você tem um orc/dragão/ladrão, etc.

Tabela de adversários do Gaia Playtest RPG
Tabela de criação de adversários do Gaia RPG

Além disso, os adversários em Gaia são divididos em três grupos de acordo com sua relevância nos encontros: menores, comuns e líderes.

Os menores são fracos, dependendo de seus números para fazerem frente aos personagens jogadores. Compartilham de uma quantidade de pontos de vigor único para todos e à medida em que recebem dano, vão sendo derrubados. São geralmente usados para forçar os jogadores a gastar recursos e fazê-los se sentirem heroicos.

Os comuns são inimigos à altura dos personagens jogadores, possuindo poderes e habilidades especiais que irão complicar bastante o combate. Existe uma lista de poderes sugeridos para eles a partir do seu tipo; agressivo, resistente, especialista ou místico. Cada tipo possui um papel determinado no campo de batalha: Um resistente pode atrair a atenção dos jogadores enquanto desperdiçam ataques que deveriam ser utilizados nos agressivos; O Especialista impõe dificuldades e efeitos negativos aos jogadores; enquanto o místico atua como mago ou suporte para os outros tipos. Obviamente, são apenas sugestões — o narrador é livre para modificar ou inventar seus próprios poderes.

E temos os líderes, que atuam como chefões — aqueles inimigos poderosos que servem como os principais vilões de sua campanha. Costumam ser muito mais fortes que a capacidade do nível dos jogadores e podem realizar duas ações por rodada, tendo à sua disposição mais poderes especiais para utilizar que os inimigos comuns.

Durante minhas sessões, desde que comecei a campanha, a capacidade de criação de vilões do Gaia me deu ampla liberdade para improvisar. Mesmo possuindo um pequeno bestiário, poucas vezes o utilizei apenas para “brincar” com o sistema de criação. E sempre que precisei criar inimigos um pouco mais complexos, nunca levei mais do que cinco minutos. Afinal, os valores estão na tabela. Quer um inimigo habilidoso? Aumente um pouco o seu valor de ataque e diminua sua defesa ou vigor. Quer um chefe? Use este valor de níveis acima dos jogadores e escolha algumas habilidades — e pronto, ele já estará pronto para causar terror aos personagens.

Como eu tenho pouco tempo durante minha semana para planejar aventuras, o Gaia me libertou de um dos meus maiores problemas enquanto narrador, que era criar encontros rapidamente, que fossem interessantes e desafiadores e que não me fizessem buscar fichas e mais fichas de monstros.

Se você é como eu ou gosta desse tipo de coisa, com certeza vai se encontrar no Gaia RPG.

Conclusões

E a aventura? Bem, tivemos a entrada de dois novos jogadores, o que me fez perder um pouco de tempo orientando e incluindo eles no grupo por meio de ganchos em suas histórias. Tivemos várias discussões e muito roleplay sobre o que fazer para encontrar estes cristais de mana, até que surgiu a urgência de buscar o que está na passagem secreta anã, antes do início do ritual da Lua Vermelha, que ocorrerá dentro de um mês.

Eles se prepararam, comprando equipamentos para a viagem até a mina dos gnomos novamente e acabaram descobrindo novidades alarmantes: bandidos vindos de um forte ao norte da vila de Midway têm atacado as estradas com uma frequência assustadora; o mesmo dragão que eles tinham avistado na primeira sessão de jogo voltou a ser visto, mas dessa vez mais próximo da vila e atacando caravanas comerciais; e uma das novidades mais estranhas foi o aumento gradual do Pântano de Sombras, que tem sido percebido pela população local, além das diversas criaturas estranhas que têm saído de lá.

Por isso, o grupo acelerou o passo para localizar a passagem anã e lá encontraram um estranho grupo de inimigos que aparentemente tomaram a mina: Pesadelos. Seres vindos da dimensão onírica de Gaia e atraídos por uma energia negativa muito forte. Eles são raros e encontrados apenas em locais onde essas energias são encontradas em grandes quantidades, como em meio a pilhas de mortos em um campo de batalha ou em um local que testemunhou crimes terríveis.

A luta foi intensa, mas eles conseguiram sair vitoriosos, permitindo que pudessem reexaminar estranhas pinturas anãs que revelavam uma passagem secreta. Nela, encontraram um portão antiquíssimo que revelou uma escadaria para uma rede de cavernas que há muito não recebia ar puro. O que será que eles encontrarão lá?

Essa é uma pergunta que iremos descobrir em nossa próxima sessão!


Fiquem ligados para mais relatos. E contem os dias, pois Tio Lipe já está com o playtest aberto pronto para publicação. Agora é só aguardar e juntar os amigos para jogar.

2 Comentários

  1. Cammy Nuwandasays:

    Oi Joka!

    Estou adorando esse playtest que você está fazendo, parece ser bastante fluído o sistema, bem do jeito que eu gosto! Apenas aqui esperando por mais! *-*

  2. jokamcsays:

    É muito. E ele usa um método de resultados no estilo Dungeon World que facilita muito na hora de tomar decisões na narrativa. Tem sido muito divertido. Este domingo tem jogo, vamos ver como eles se sairão.

Deixe uma resposta