É possível utilizar o RPG em sala de aula? [Parte 2]

Olá, eu sou o Lima, Raphael Lima.

Essa semana na Caixa do Lima, coluna na qual conversamos quinzenalmente, gostaria de dialogar novamente sobre o uso do RPG na educação. E dessa vez atendendo a pedidos do pessoal que entrou em contato após a postagem “É possível utilizar o RPG em Sala de Aula” que foi publicada em dezembro de 2017. Na referida postagem, faço um relato da minha experiência com o uso/tentativas do RPG na educação, desafios, dificuldades e acertos. Para começarmos recomendo a leitura do artigo anterior para os que estão lendo essa postagem, para acredito eu ter uma melhor compreensão do que está sendo debatido.

E por que tocar nesse assunto novamente? Após a postagem citada acima, ocorreu uma procura dos companheiros docentes que desejam utilizar o RPG em sala de aula, mediante esse fato, resolvi fazer essa postagem com algumas dicas básicas para quem quer começar a usar o RPG nas suas aulas.

AVISO

ESTE ARTIGO REPRESENTA
MINHA EXPERIÊNCIA COM O RPG
EM SALA DE AULA

O que é RPG?

A sigla RPG vem do inglês, Role-Playing Game, que pode ser traduzido como Jogo de Interpretação de Papéis, porque nele você interpreta o papel de um personagem em uma história. Em um RPG de mesa, você e seus amigos criam uma história juntos, sobre um grupo de personagens que participam de aventuras. Cada um dos jogadores cria seu próprio personagem, decide os desafios que irá enfrentar e a forma como irá lidar com eles. Para deixar as coisas mais interessantes, o jogo usa dados — de acordo com regras, do sistema escolhido — para adicionar um pouco de incerteza e tornar as coisas mais interessantes.

Será que seu personagem consegue subir na árvore sem ser visto? Role os dados. Será que seu personagem consegue acender uma fogueira para escapar do frio da noite em uma floresta? Role os dados. Será que seu personagem consegue vencer um duelo de espadas contra um espadachim experiente? Role os dados.

RPGs podem lembrar um pouco alguns videogames (também chamados de RPG), mas ao invés da história e finais serem pré-definidos e imutáveis, como nos videogames, o RPG permite que seus participantes tomem controle da história: Um dos jogadores assume o papel do Narrador, ou Mestre do Jogo (MJ). Ele tem a tarefa de descrever o mundo ao redor dos personagens, criar os conflitos e o drama que eles irão enfrentar e resolver questões de regras, além de interpretar os Personagens do Mestre (PdM), que interagem com os Personagens dos Jogadores (PJ). Os outros jogadores interpretam os PJs, seus próprios personagens e protagonistas da história, da maneira como foram descritos e juntos, contam suas aventuras.

Existem muitos tipos diferentes de RPGs — alguns têm cenários especiais (aventuras no espaço, aventuras em um mundo de cavaleiros e dragões, aventuras de investigação, aventuras de horror) e também regras especiais, dependendo do tipo de aventura. Por exemplo, uma aventura em um reino de magos, dragões e cavaleiros, terá regras especiais para magia, para criaturas que cospem fogo e para lutar com espadas; enquanto uma que se passa no futuro distante terá regras para lidar com espaçonaves, robôs e armas de raios.

O que você precisa para jogar?

Para jogar RPG você e seu grupo precisará de um livro de regras, alguns dados multifacetados de acordo com o sistema, algumas cópias das fichas de personagens que geralmente estão no fim do livro básico do jogo, alguns lápis e borrachas, um local tranquilo para os jogos, e tempo disponível.

Jogadores, Personagens e Narrador

Antes de começar a sessão, o grupo deve escolher um membro para ser o narrador, e os demais serão os personagens. Os jogadores devem criar seus personagens, anotando as características escolhidas na ficha. É através dele que você irá criar uma história, junto com os outros jogadores e o narrador. Os jogadores vão interpretar (atuar e falar como o personagem e interagir com os PdN) seguindo as características de sua ficha.

O narrador geralmente tem uma parcela razoável de trabalho antes de começar a aventura que irá narrar para os jogadores. Ele precisa definir os conflitos que os jogadores irão encontrar, decidir sobre as ações dos PdN e ser o árbitro das regras, verificando qual regra deve ser usada em cada situação, ou como ela deve ser aplicada. Ele pode precisar tomar algumas notas enquanto assiste ou lê um de seus filmes ou livros favoritos, para se inspirar. Muitos Narradores aprendem seu ofício lendo e usando aventuras prontas (existem muitas na Internet) até entender como criar obstáculos e oponentes interessantes, PdNs memoráveis e reviravoltas emocionantes.

O Narrador irá criar situações, desafios, obstáculos e inimigos ao longo da história, que os jogadores devem superar. Alguns inimigos (PdNs) são criados como se fossem um PJ, enquanto a maioria é feito de maneira bem simples. Com alguma prática e preparação, é possível improvisar e manter a aventura e a diversão dos jogadores fluindo sem problemas.

Dicas para os docentes

Neste ponto, pretendo elencar algumas pequenas dicas para os docentes que desejam começar a utilizar o RPG em sua prática, lembrando aos leitores que esses apontamentos não são um trilho, mas uma trilha com base na minha experiência.

Ler, jogar e narrar RPG

O ponto inicial para o docente que deseja usar a narrativa interativa nas suas aulas é “Ler, Jogar e Narrar RPG” pois o mesmo precisa dominar a ferramenta, assim como os conteúdos que vai ministrar em sala de aula.

  • Ler e buscar fontes (artigos que relatem experiências com o uso do RPG na educação) e leituras de RPG’s (sistemas de regras diversos, com as mais variadas propostas: gamistas, simulacionistas e narrativistas). Monte uma pequena biblioteca de sistemas variados, seja ela física ou digital (existem inúmeros sistemas gratuitos na internet para o acervo da sua biblioteca).
  • Jogar RPG é fundamental, para aprender na prática como funciona a metodologia da narrativa interativa, pois VOCÊ conduzirá a atividade de apresentação do RPG aos alunos/as. Existem eventos na sua cidade? Compareça, apoie, jogue as mais variadas aventuras, troque ideias e experiências com os jogadores e narradores.
  • Narrar uma aventura; você leu, montou uma biblioteca e já jogou, é hora de narrar a sua primeira aventura. Existem inúmeras aventuras prontas, e nos mais variados sistemas. Narre quantas vezes você achar necessário para ter confiança na função de narrador.

Monte um projeto

A estruturação de um projeto é importante, pois será o guia do seu trabalho. Um projeto tem os seguintes tópicos: título, problematização, justificativa, objetivos (geral e específicos), metodologia, fundamentação teórica, cronograma e referências. Não pretendo construir um guia de construção de projetos, mas gostaria de abordar dois dos pontos citados, não que os mesmos seja mais que importante que os demais, mas gostaria de acrescentar algo a discussão nesse momento sobre esses dois tópicos: fundamentação teórica e cronograma.

Na fundamentação teórica é importante o docente expor bem os autores dos quais o seu projeto está dialogando, aliando a metodologia do seu projeto. Por exemplo, em meu projeto, dialogo com Paulo Freire, utilizando-me das ideias do seu livro Pedagogia da Autonomia, onde o mesmo defende que

ensinar não é transferir conhecimento, e sim dar ferramentas para o discente construir seu próprio conhecimento

Nesse ponto, minha proposta é que os discentes se apropriem do RPG como ferramenta e produzam narrativas aliadas aos conteúdos.

O Cronograma é a organização do trabalho ao longo do ano para saber como começar e terminar os trabalhos. Novamente citando o meu exemplo, organizei um cronograma de Março a Novembro, onde o mesmo iniciava com uma grande oficina, e finaliza com um evento aberto na escola, trabalhando a cada mês com um determinado jogo e suas regras nas mais diversas situações.

Exemplo:

AÇÕESMarAbrMaiJunJulAgoSetOutNov
Apresentação do projeto à comunidadeX
Planejamento das NarrativasX
Seleção e treinamento dos NarradoresX
Início das atividadesX
Sessões semanaisXXXXXXXX
Oficina do dia do estudanteX
Oficina Feira de CiênciasX
Encerramento das atividadesX
Apresente o projeto à comunidade escolar e monte um coletivo de narradores formadores

Com o projeto pronto, e uma linha de trabalho definida, é hora de apresentar a proposta a comunidade escolar. Nesse ponto o proponente já deve ter sua linha de trabalho definida, e está pronto para defender o seu projeto. Após a aceitação, é hora de divulgar com os discentes. Um primeiro passo que recomendo é a organização de um coletivo de narradores, convide alunos/as que tem afinidade e conheçam o RPG, e os que tenham interesse em aprender, e prepare uma boa sessão introdutória, e disponibilize o acesso a biblioteca digital que você construiu no primeiro passo. Com isso organizado, estimule esses primeiros participantes a Ler, Jogar e Narrar RPG.

Seleção de sistemas de jogos

Durante a fase de planejamento das narrativas descrito no cronograma, você deve fazer uma seleção dos sistemas que vai utilizar na sua atividade, um grande conselho é… essa lista não deve ser imutável, mas o início de um trabalho, e a mesma pode sofrer alterações durante o processo para se adequar a realidade do grupo na qual a atividade está sendo proposta. Tenha sempre em mente, que o RPG será uma ferramenta, e não um fim, então não foque em ensinar o seu sistema favorito, mas sim utilizar a narrativa interativa (metodologia do RPG) como ferramenta no processo de ensino aprendizagem.

Existem muitos jogos gratuitos na internet, e até sistemas que permitem a sua impressão para fins não comerciais, é um ótimo começo pois os alunos/as precisam ter acesso aos livros.

Agentes Multiplicadores

Finalizando essas primeiras dicas, incentivem os alunos/as a serem agentes multiplicadores, e deixe que narradores formem outros narradores, pois assim será mais fácil quando você necessitar de fazer uma atividade/oficina em uma referida turma, sobre os mais variados conteúdos.

Conclusão

Um dos maiores empecilhos para a consolidação de projetos envolvendo o RPG na escola são a carga horária semanal e os recursos para o material. Sobre a carga horária semanal, como solução realizei as atividades de formação de narradores no contra turno, para que os mesmos estivessem preparados para quando as narrativas ocorressem com os seus colegas nas aulas. Em relação aos recursos, existem muitas oportunidades de editais de projetos na rede pública de ensino, mas com a experiência de quatro projetos aprovados, e de observar os recursos indo para outras finalidades sem poder fazer nada (fora a tristeza e frustração), recomendo a vocês que solicitem nos orçamentos uma impressora, e quem façam a impressão de jogos e minijogos gratuitos e distribuam livremente para todos os participantes; pois como sempre defendo, o discente deve se apropriar da ferramenta.

E reforçando a mensagem, o RPG deve ser uma ferramenta de ensino e aprendizagem na escola, e não um meio de ensinar seu sistema favorito. Na próxima postagem pretendo elencar alguns livros gratuitos que aconselho está em sua biblioteca.

Até breve! 😉

5 Comentários

  1. Pedro Henriquesays:

    Parabéns pela iniciativa ! É disso que precisamos para fomentar o hobby e trazer novos jogadores, Tive algumas experiências com essa proposta através de amigos docentes que me convidaram para narrar aos seus alunos, inclusive em aulas de game design.
    O rpg pode ser uma grande ferramenta educacional para estimular os alunos em diversas aéreas.

    Abraço !

  2. Ana Maria de Medeiros Lucassays:

    Parabéns Raphael pelo belo trabalho. Nos dias de hoje, onde a educação deixou de ser atrativa, são ações inovadoras como as que você apresentou na formação do ensino religioso, que vai fazer a diferença no aprendizado e na vida do estudante. Vá em frente, pode ser o início de uma mudança no ambiente escolar.

  3. Mais uma vez, parabéns! Li rapidamente e relerei, e deixo um acréscimo de Johan Huizinga em sua obra ‘Homo Ludens’, que não se pode forçar os participantes à prática, ou deixa de ser jogo e passa a ser uma imitação forçada (pág. 10). Mas não sei como você faz com relação aos alunos e alunas que não querem jogar. Preciso reler com calma.

    Eu distribuo para docentes em eventos acadêmicos durante apresentação oral, pôster ou minicurso o RPG BÁSICO, que usa apenas uma moeda (não sou o criador do sistema, dou os créditos ao autor) e tem apenas 10 (dez) páginas de texto. De jogos pequenos há vários no Dungeonist, como já deves ter visto, marcador (‘tag’) ‘minimalista’.

    Ah, eu venho usando a sigla que os franceses e espanhóis usam, JDR (jogo de representação) e como temos a língua de origem no latim também, eu gosto da sonoridade que fica.

    Bem, como fazes para dividir em grupos? São alunos que querem narrar? São escolhidos e orientados para narrar?

    Seguem alguns jogos pequenos e simples (poucos meus, de John Harper e de Petras também!)
    http://rpgsimples.blogspot.com.br/p/rpg-basico-para-aprender-e-ensinar.html

    Prof. Gilson

  4. Esqueci a referência:
    HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 2012.

  5. Esqueci a referência:
    HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 2012.

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