Dicas de Narrativa: Como Cuidar do seu NPC

Olá, pessoal!

Essa semana, vamos dar continuidade às nossas dicas de narrativa que iniciamos com o Dicas de Narrativa: Gênesis – O Céu e a Terra.

Hoje, iremos falar sobre a criação de personagens, mas não quaisquer personagens e sim os nossos queridos NPCs, aqueles que moldamos do barro com nossas próprias mãos e que devem servir a uma função narrativa em nosso jogo. Enquanto nosso próximo artigo será dedicado com detalhes e dicas importantes sobre como ajudar seus jogadores caso eles tenham dificuldade em criar um personagem e a manutenção desses PCs (playable characters) na sua história, hoje nós iremos conversar um pouco sobre os nossos próprios personagens em nossas campanhas e sua importância na narrativa.

A importância de um NPC na narrativa

Cena de Final Fantasy

Como conversamos semana passada, é necessário, para uma narrativa bem construída e uma campanha empolgante, que alguma coisa esteja ocorrendo no Reino da Dinamarca, pois ninguém acorda de sua cama quentinha e parte em uma jornada, se já vive num paraíso de prosperidade e paz. Embora você não deva se dedicar em excesso ao que acontece de pano de fundo, o fato é que alguma coisa precisa estar acontecendo, qualquer que seja ela.

E é aí que entra essa figura tão importante do NPC, ou non-player character, termo aplicado nos jogos de consoles para aqueles personagens que você só pode interagir, sem controlar e, no nosso caso, referindo-se aos personagens criados pelos mestres e controlados por eles, cuja única e essencial função é mover a trama.

A dificuldade de se conduzir uma narrativa rica reside na sua dificuldade em criar NPCs interessantes para movimentar sua história. Sejam aqueles mais distantes da narrativa, que existem em um plano de consciência de todos mas que nunca apareceram, como o rei de uma terra distante que volta e meia é mencionado, mas os personagens dos jogadores nunca o encontraram; ou um ladrão que encontre os personagens pelo caminho, seduza aquela guerreira e roube todo o seu equipamento para vender e ter uma boa vida por aí. Esses personagens servem para enriquecer uma trama que, do contrário, parecerá uma terra vazia habitada pela meia dúzia de moradores da qual fazem parte os seus jogadores.

Personagens com motivações variadas que representem desafios diferentes para seus jogadores são muito interessantes, sejam esses desafios de natureza física, intelectual ou emocional. Tente diversificá-los, tente encontrar um equilíbrio entre essas questões, envolver os personagens de seus jogadores de maneiras distintas usando seus NPCs, de modo que não seja a repetição de sempre sobre quem será o vencedor no embate dos mais forte. Você é o Narrador — esses personagens são suas ferramentes, suas peças nesse tabuleiro, para movimentar o jogo.

Porém, aqui ainda é preciso ter um pouco de cuidado: lembra-se de quando dissemos que o Narrador não deve se empolgar na criação de detalhes pesados sobre o passado e eras que, muito provavelmente, poucos jogadores terão interesse em acompanhar? A mesma regra se aplica aos NPCs, ou seja, invista sabiamente seu tempo criando personagens que irão movimentar a trama no agora ao invés de personagens do passado que servem sim, para complementar a história passada de sua narrativa, mas não têm tanta importância como aqueles que irão interferir no agora. Como Narradora, eu entendo perfeitamente a tentação de criar reis e deuses antigos, de criar todo um passado para seu mundo, mas no final das contas, o ladino que rouba corações de guerreiras ainda é mais importante do que um rei de sete séculos passados que ninguém jamais verá na sua campanha.

Da diferença entre sentir-se em um mundo sufocado onde só exista meia dúzia de gente que acordou sem propósito naquele dia, a fazer seus jogadores entrarem em um mundo rico que emula a realidade, depende muito dos NPCs que você irá criar para enriquecer sua narrativa — e por isso, é sua responsabilidade pensar neles com muito carinho e cuidado.

A dicotomia entre PC e NPC em sua narrativa

Cena de Final Fantasy

Existe uma questão essencial ao redor de um NPC: qualquer personagem que o Narrador tenha que criar para movimentar as rodas da história deve existir em função dos jogadores. Sim, meus queridos, eu sei que vocês irão pensar em um antagonista muito digno, um personagem interessantíssimo, mas nunca, em hipótese alguma, devem se esquecer de que o Narrador, deus criador desse mundo, serve aos seus jogadores —  que dirá aquele personagem criado por ele.

Pense em como envolver os personagens com os NPCs, como podem se tornar o antagonista de alguém, como torná-los parte desse mundo e dessa jornada, não apenas peças sobressalentes que volta e meia são usadas naquele tabuleiro. E não se esqueça de que você é o Narrador e não apenas um Jogador.

Você é o mercador, você é o rei, você é o ladino, a paladina que detesta a mentira de bardos salientes, mas você não é um Jogador. Seus personagens existem para servir a um propósito e esse propósito é movimentar a trama, enriquecê-la, torná-la interessante e vívida para um PC.

Dura lex, sed lex.

 

A prática do Desapego

Let It Go by Chesfire
Let it go by Chesfire

Esse é um ponto primordial e talvez o qual sejamos mais propensos a falhar miseravelmente. Por isso, devemos redobrar nossa vigilância e nossos esforços para que isso não ocorra novamente. Se você escolheu ser um Narrador, você escolheu o caminho da servitude e do desapego. Essa é a sua escolha, você tomou esses passos, você escolheu Narrar um jogo, mestrar uma campanha, moderar um fórum — você tomou para si a responsabilidade de servir e a demanda de aprender a desapegar-se de tudo.

Você irá criar aquele NPC maravilhoso — sua paladina que odeia mentiras, defensora da verdade e um bastião de virtudes que ainda assim se vê na obrigação moral de ajudar o bardo daquele seu jogador que quer passar todos os testes no carisma e no blefe. Talvez eles tenham até um relacionamento, talvez ela se apaixone por ele, talvez seus jogadores e você a adorem, mas um dia o bardo volúvel irá se cansar de tudo isso e tentar abandoná-la para viver a vida que acha que merece, conquistando aquela rainha da costa. E por mais que a paladina fique cheia de fúria e lute com o paladino, ela irá ter que desaparecer dessa história para dar continuidade à narrativa.

Será difícil, eu sei disso, foi difícil para mim entender que eu sou uma Narradora, posso criar o melhor NPC do mundo e ainda assim ele será um NPC, que serve a um propósito cuja existência termina junto com ele.

Aquele que não tem o teto dessa fundação de vidro que atire a primeira pedra!

É óbvio, como no caso da paladina, que ela deve enfrentar seu antigo beau com toda a sua disposição, porque embora você jamais deva menosprezar o personagem de seu jogador, terá que sumir com ela — ou com qualquer outro personagem que já tenha exaurido sua utilidade. Você não é um jogador, seus personagens são ferramentas. Você jamais deve colocá-los acima dos jogadores em termos de importância.

Aprenda a praticar o desapego, aprenda quando seu NPC deve desaparecer ou morrer, aprenda que nada do que você cria é para sempre — pratique o desapego, a arte mais difícil de dominar. Ainda que você saiba que talvez pudesse salvar aquele NPC, não o salve. Se é melhor para a narrativa que ele permaneça morto, faça-lhe um velório, mas não procure desculpas para continuar com ele na trama, como se você e seu NPC fossem um jogador a mais — porque vocês não são.

Você escolheu ser um Narrador, aquele com o dever que não pode ser postergado, porque você abraçou essa responsabilidade.

Desapegue.


Os NPCs são uma ferramente extremamente importante para sua narrativa. Eles ajudarão a dar vida àquele universo criado por você, ajudarão a colocar em prática os acontecimentos, a movimentar a sua trama e os próprios personagens dos jogadores. Você deve criá-los pensando neles como suas peças no tabuleiro e ferramentas, mas jamais, em hipótese alguma, você deve torná-los mais importantes que os personagens de seus jogadores. Não pense em si mesmo e seus NPCs como um oponente que pode vencer a rodada — essa não é a função do seu NPC e certamente não é a sua.

Se você não aprender a praticar o desapego, irá frustrar todos os seus jogadores quando eles perceberam que estão apenas colaborando para o seu livro de ficção ou sua fanfic que, no final das contas, nem coletiva será.

Somos Narradores, somos mestres do desapego e da improvisação. É o que torna nossa narrativa tão boa, é o que tornará a sua campanha, a sua narrativa tão atrativa.

1 Comentários

  1. Olá Cammy!
    Ótimas dicas. Sempre tento dar dimensão os meus NPCs, onde a profundidade varia com cada tipo de história que estou contando (tenho uma lista com mais de 40 NPCs de uma campanha que fiz de One Piece, descrevendo sua filiação, personalidade geral, motivações e aparência). E acredito que tem muita gente por ai que precisa ler esta postagem. XD

    Até and Bye…

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