Criando cenário colaborativos: Gaia Playtest

Sejam bem vindos a mais um Espaço Mítico, eu sou o Joka e trago para vocês duas novidades interessantes: A primeira é que neste artigo discutirei algumas maneiras de se criar um cenário colaborativamente com os jogadores, tanto para gerar inspiração para as aventuras seguintes, como para servir de aproximação entre os jogadores e o cenário, o que é especialmente interessante para quem quer começar uma campanha nova e não sabe bem o que fazer ainda.

A outra é que tudo isso foi feito para celebrar o início de uma campanha de playtest do Gaia RPG.

Ano passado, o nosso amigo Tio Lipe da coluna Santuário do Mestre, postou um artigo chamado de Sistema Gaia RPG. Nele, apresenta um sistema novo que está desenvolvendo para aventuras de fantasia medieval com base em RPGs como D&D, 13ª Era, FATE Básico e Fate Acelerado, Dungeon World, Open Legend (leia mais sobre ele aqui), Ryuutama (o qual ele mesmo resenhou aqui) e o Sistema +2d6 do Tio Nitro. Tendo acompanhado o Tio Lipe no desenvolvimento do jogo, participando do playtest fechado do sistema nos eventos do Encontro Mundos Colidem de RPG (apelidado de EMC²) aqui em nossa cidade Natal, podemos dizer que o Gaia já está bem próximo do lançamento de seu playtest aberto que será disponibilizado aqui mesmo pelo Mundos Colidem.

Mas o que realmente falta para testar no sistema é seu comportamento durante uma campanha de RPG. Por isso, resolvi abrir uma mesa durante os eventos do EMC² para pôr isto em prática e pegar o feedback dos jogadores quanto a possíveis melhorias para o sistema. Assim, o primeiro passo era escolher um cenário de campanha onde este jogo se passaria. Foi então que resolvi fazer o oposto: por que escolher um cenário, se posso criar um com os jogadores? Algo único e cheio de novidades, tanto para mim como narrador, como para os jogadores, que teriam a chance de escrever sua própria história nesse mundo.

Antes de chegar no dia do encontro com os jogadores, tomei um tempo para preparar pelo menos um caminho norteador no cenário, uma espécie de tema central. Assim, defini as seguintes linhas para apresentar como uma introdução aos jogadores:

Gaia é tanto o nome deste mundo quanto é o nome da Deusa Maior, também chamada de A Grande Mãe. Há alguns séculos atrás, o povo de Gaia perdeu o contato divino com a sua deusa e desde então o mundo tem estado à beira de um colapso. Mudanças climáticas súbitas, terremotos e estranhos portais trazendo criaturas terríveis nunca antes vistas têm surgido por todo o lugar. O que aconteceu com a deusa? Ninguém sabe. O que está causando todas estas mudanças? Ninguém faz ideia. A única coisa que se sabe é que Gaia precisa desesperadamente de heróis. Vocês tem o que é necessário para trazer equilíbrio a este mundo à beira do caos?

Ou seja, o tema principal é que Gaia é um mundo em que a deusa abandonou seus filhos. E isso criou um ressentimento que fizeram essas criações buscarem novos deuses ou simplesmente passarem a ver as criaturas divinas como mitos há muito esquecidos. A próxima etapa obvia, seria apresentar as raças principais com que os jogadores poderiam criar seus personagens. Para ser um pouco diferente, peguei as famosas 6 raças típicas de cenários de fantasia padrão e as modifiquei para deixar mais semelhante à proposta do cenário. A maior parte da inspiração destas raças veio de um RPG que está em produção lá fora, chamado BREAK!! RPG que se inspira fortemente em anime, manga e jogos de RPGs clássicos do NES. São elas:

  • Anões: São seres humanoides baixos e atarracados, de corpos compostos de rocha pura. Eles se consideram os “verdadeiros” filhos de Gaia por terem nascido da própria terra. Eles não têm“gênero” como conhecemos, e a reprodução deles é realizado através do ato de esculpir seu filho e compartilhar parte de sua centelha vital, que é uma energia magica dada pela própria Gaia, para criar uma nova vida. Suas barbas seriam limo e suas “raças” variam conforme as rochas que formam o seu corpo. Quando um anão morre, ele vira uma estátua de pedra. É comum colocar estas estátuas nos grandes salões dos anões para celebrarem os feitos de seus antepassados. Atualmente, a raça vive um forte cisma. Desde o desaparecimento de Gaia, muitos anões têm deixado de lado sua religião original e cultuado um jovem deus chamado Vulcanos. Além disso, criaturas terríveis emergem das profundezas da terra e expulsam os anões de seus lares ancestrais, obrigando-os a morarem cada vez mais próximos da superfície. Atualmente, uma grande quantidade de anões pode ser encontrada nas cidades da superfície ou em comunidades no alto das montanhas.
  • Elfos: São humanoides altos e de coloração esverdeada. Seus cabelos geralmente são feitos de pétalas de rosas ou folhas coloridas (muitas vezes até são compostos por cipós). Moram em florestas e sempre ao redor de uma Jurema morta, pois dizem que a árvore deusa Jurema criou os primeiros elfos das suas primeiras sementes. Apesar de sua forte relação com as florestas, os elfos são onívoros e exímios caçadores e coletores. Possuem um forte apreço pela magia e sabem fazer trabalhos quase milagrosos com madeira.
  • Humanos: Vindos de um planeta distante e de estranha tecnologia (e quando questionados, dizem ter semelhanças com a civilização gnomo), eles chegam pelos mais variados motivos a Gaia. Alguns alegam terem trabalhado até tarde em seus empregos tediosos e pegaram no sono sob a mesa de seus escritórios e quando acordaram estavam aqui. Mas uma coisa todos os humanos que chegam em Gaia têm em comum: São tomados por uma euforia que poderia facilmente ser confundida com excesso de café e descobrem possuir talentos que nunca conseguiriam reproduzir em seu mundo natal, como lançar magias ou lutar com espadas. Muitos dos humanos que chegam sofrem bastante com diferenças culturais e reclamam o tempo todo, sempre tentando encontrar uma forma de voltar para casa e suas famílias. Outros, no entanto, abraçam o novo mundo e formam um lar que sempre sonharam em ter.
  • Gnomos: São humanoides baixos, menores até que os anões, de cabeça levemente maior do que deveria ser e de cabelos e barbas coloridas. Ninguém sabe exatamente de onde vieram os gnomos ou porque vieram até Gaia — nem mesmo os próprios gnomos. O que se sabe é que há muitos séculos atrás eles chegaram em um enorme navio voador que caiu sobre o planeta, deixando uma enorme cratera no lugar. Os sobreviventes tiveram que reconstruir sua civilização com o que sobrou das peças do navio e formaram o que hoje é conhecido como O Império. Durante os primeiros anos em Gaia, os gnomos quase conquistaram todas as raças, que se viram obrigadas a lutarem juntas ou terem suas terras destruídas para alimentar a industria tecnomágica deles. Atualmente, o Império é apenas uma sombra do que já foi um dia, estando restrito a área imediatamente ao redor dos restos de seu navio voador. Muitos gnomos abraçaram a nova terra e o povo nativo como amigos e até participaram da defesa de Gaia contra seus semelhantes, criando um cisma dentro deste povo que provavelmente nunca se recuperará.
  • Halflings: Raça pequenina, equiparando-se em tamanho apenas aos gnomos e perdendo por pouco para os anões, os halflings são um povo formado por pequenos condados, ou cidades-estado, vivendo basicamente de comercio, plantio e pastoreio montados em seus cães pastores. Contudo, é um povo que teve muito cedo que aprender a defender-se, possuindo em todo condado ou cidade-estado uma companhia de Patrulheiros que vigia os limites de seu povo, os policia e organiza as defesas em tempos de necessidade. É um povo corajoso, guerreiro e que facilmente impressiona qualquer um que não esteja acostumado a ver seus pequenos corpos com rostos de crianças derrubando criaturas muito maiores — e sem grande dificuldade.
  • Filhos de Luna: São seres humanoides altos que se assemelham a homens lobo. Seus corpos são peludos, seus membros superiores possuem dedos semelhante aos dos humanos com unhas um pouco mais longas e seus membros inferiores terminam em patas. Vivem em tribos com fortes laços familiares ou de amizade, tratando todos aqueles do grupo como membros da “matilha”. Se um dia você for considerado membro da matilha de um Filho de Luna, saiba que você tem a amizade eterna dele e de todos os membros de sua tribo. Eles vivem vidas nômades, e geralmente caçam grandes animais ou monstros que perambula as terras de Gaia. São grandes devotos da deusa Luna e acreditam firmemente que um dia Gaia irá retornar.

Com essa descrição servindo como base para o cenário, deixei os jogadores criarem seus personagens e durante o processo, tudo o que eles falavam sobre as raças, religião e sobre o próprio mundo passava a ser verdade desde que não anula-se o que já havia sido estabelecido. Por exemplo, um dos jogadores que havia escolhido criar um personagem Filho de Luna afirmou que a sua raça ainda acreditava no retorno de Gaia e que Luna os guiaria até seu retorno. Também foi feita as conexões entre os personagens jogadores para facilitar existir um motivo para estarem juntos desde o início que rendeu boas risadas, tendo em vista que o ponto central é o fato de um halfling filho de uma família de cervejeiros locais ter reunido vários amigos para se aventurarem pelo mundo.

A próxima etapa nessa construção colaborativa é uma das mais importantes — a definição dos arredores onde a campanha se iniciaria. Perguntei ao grupo qual o nome da cidade (ou vila) em que todos eles moravam (e já definindo de antemão que o local que eles moram tinha que ter como característica marcante ser multicultural) e eles responderam como sendo “a vila de Natville, apelidada carinhosamente pelos locais de Midway por ficar no meio do caminho entre os diversos reinos que compõe o mundo de Gaia” (E também uma referência ao shopping local próximo onde jogamos nos eventos do EMC²).

Peguei uma folha em branco de caderno, desenhei um círculo envolta de Natville e disse que cada um dos jogadores deveria criar um Ponto de Interesse nesse mapa. O círculo representava as imediações da vila enquanto o que estivesse fora do círculo exigia uma viagem um pouco mais longa e talvez perigosa. E um por um foram colocando seus pontos como mostra a imagem a seguir.

E o que obtive dos jogadores foram coisas como:

  • Deserto de tubarões de areia, onde criaturas semelhantes a tubarões nadam nas areias do deserto como se estivessem na água atacando viajantes incautos. É também lar de uma guilda de ladrões que serve a um misterioso líder chamado Senhor das Sombras.
  • Templo abandonado de Gaia, que dizem, guarda tesouros esquecidos da época em que Gaia comunicava-se com seus filhos.
  • Floresta das Árvores que brilham, é um lugar que pode ser visto de muito longe a noite. As árvores aqui brilham com uma luz cintilante e quase espectral. Pouco se sabe de sua natureza mágica e que segredos se escondem lá.
  • Vila élfica, construída nas imediações de uma árvore de Jurema gigante morta. Dizem que lá é um templo muito antigo a esta deusa dos elfos.
  • Fortaleza e lar de uma guilda de mercenários e bandidos. Viajantes incautos tem sofridos ataques constantes deles.
  • Uma estranha cachoeira que dizem encobrir uma passagem secreta para um tesouro anão a muito esquecido.
  • Um chão de fendas sem fundo abriu nas imediações da vila de Netville, dizem que aqueles que passam por lá são atacadas pelas suas próprias sombras que após matarem suas vítimas criam vida própria. O local cresce a cada dia que passa, como uma sombra ameaçadora que se aproxima.
  • Ao longe, uma cadeia de montanhas rochosas e antigo lar dos anões desponta no horizonte. Pouco se sabe sobre eles e os últimos anões que vieram de lá nunca mais ouviram falar de seus irmãos.
  • Floresta do Uivo, lar de uma matilha nômade de Filhos de Luna.
  • A vila de Netville possui uma estátua de um grande guerreiro que lutou bravamente por algo que praticamente ninguém na vila lembra mais.

O resultado final do mapa foi feito no programa Inkarnate após algumas considerações e modificações minhas podendo ser conferido logo abaixo.

Realizadas todas estas etapas, eu pedi aos jogadores que enquanto grupo, escolhessem um dos locais criados por eles que gostariam de explorar e aventurar-se primeiro. Prontamente decidiram averiguar que tesouros ou segredos o templo de Gaia abandonado poderia ter escondido em suas ruínas — e assim tínhamos a nossa primeira aventura! O grupo organizou seus equipamentos na taverna local e partiram, apesar dos protestos dos aldeões sobre os perigos de visitar tal lugar.

No sistema de Gaia RPG, a viagem tem um papel importante nas mecânicas do jogo e aqui é chamada de Jornada, sendo divida em três etapas principais e duas opcionais: Direção, Viagem e Acampamento. As outras são Patrulha e Caça.

Elas são feitas com base na dificuldade do tipo de terreno que os jogadores estão viajando, bem como o clima. Para deixar o grupo ir se adequando ao novo sistema, eles fizeram uma jornada de 4 dias até o templo em uma área de colinas e planícies de clima ameno. Cada membro pode participa apenas de um desses testes (ou ajudar o colega que vai fazer um deles) e os resultados podem causar dano, deixa-los cansados ou permitir chegarem revigorados e prontos para enfrentar o que encontrarem em seu destino final. Nesse caso, o grupo conseguiu, apesar de alguns machucados, chegar relativamente inteiro até o pé da serra em que as ruínas se encontravam, tendo conseguido evitar o que parecia ser um enorme lagarto verde voador e um grupo de bandidos, que parecia ter vindo da Fortaleza.

Cada encontro destes eu anotava como um problema que poderia surgir em outro momento posterior por eles caso não fosse resolvido durante o encontro. Tudo isso sendo ajudado pelos próprios resultados das jogadas de Jornada que ajudavam e muito a definir acontecimentos e até novas cenas para a aventura, dando um gostinho a mais as viagens.

Quando chegaram na serra onde o templo se localizava, o grupo percebeu que precisava escalar, se quisessem finalmente entrar no templo. Contudo, resolveram procurar uma entrada alternativa, que para a surpresa de todos, levava para uma estranha mina no sopé do local. Lá, descobriram que gnomos do Império coletavam um cristal chamado de Essência de Gaia. Quando a deusa ainda se comunicava com seus filhos, dizia-se que este cristal tinha propriedades divinas e era terminantemente proibido extraí-lo da terra sem necessidade. Mesmo sem entender exatamente o por que da mineração, resolveram impedir os gnomos, que reagiram muito mal a chegada deles, o que levou a uma breve luta surpresa e sua eventual derrota para os personagens jogadores. Com os gnomos vencidos, eles descobriram que existia uma operação do Império para utilizar aquele material na construção de materiais tecnomágicos. Botaram os gnomos mineradores para correr e decididos, entraram mais fundo na mina para acabar com toda aquela operação.

Isso finalizou a nossa primeira sessão de playtest do Gaia RPG. Fizemos a construção dos personagens, do cenário e ainda sobrou tempo para dar o primeiro passo numa aventura que o grupo organicamente escolhera enfrentar. Foi uma experiência bastante interessante e imersiva, pois os jogadores perceberam que possuíam ampla liberdade em definir aquilo que eles achavam que fazia sentido tanto para a aventura, quanto para seus personagens. Isso os envolveu com mais intensidade e permitiu que eu, como narrador, improvisasse em cima das ideias deles.

A medida em que novas sessões da campanha forem ocorrendo, farei novos relatos do progresso do playtest do Gaia RPG, como o uso das regras, avanço dos personagens e desenvolvimento da narrativa pois o foco da postagem de hoje era apenas para mostrar como o cenário foi criado junto com os jogadores e apresentar brevemente parte da experiência de jogo da 1º sessão.

Considerações e Inspirações

A inspiração para fazer um cenário de campanha do zero nasceu após eu ter entrado em contato com dois materiais muito bacanas, sendo que um deles recentemente foi traduzido em português.

Um é o Freebooters on the Frontiers, que é um hack do Dungeon World para jogos no estilo Old School e Hexcrawl. O outro é o Perilous Wilds, do mesmo autor do Freebooters, mas que serve para todo tipo de sistema, por conter diversas tabelas para geração de lugares de forma aleatória.

Através deles, eu percebi que pode ser libertador jogar um cenário de RPG mais colaborativo, onde deixamos a história se construir à medida em que ela se torna necessária. Apesar destes materiais terem toda a colaboração do próprio sistema de regras do Apocalypse World, eles podem ser muito úteis para quem quer aproveitar para desenvolver seu próprio cenário do zero junto com seus jogadores em qualquer outro sistema.

Esta pode ser uma experiência muito interessante para a sua próxima campanha. Que tal dar uma chance?

4 Comentários

  1. Leishmaniosesays:

    Olá,

    Excelente artigo, Jokeijo! Acho que vou dar uma fuçada depois nesses materiais que você linkou, pra ver se saio desse bloqueio de começar campanha. HAUHAUHAUAHUAHUAHUAAA!

    Bonanças.

    Atenciosamente,
    Leishmaniose

  2. Olá!
    Um relato exemplar e ficou ainda mais legal vendo o desenho do mapa que os próprios jogadores descreveram. E sim, eu vi as nossas conversas sobre o cenário na sua postagem. XD

    Esperando novidades do andamento do sistema nas suas mesas.

    Até and Bye…

  3. Jokasays:

    Dê uma olhada sim. Vale a pena. =D

Deixe uma resposta