A Importância da Narrativa em um Jogo de RPG

Como bons jogadores de RPG, todos nós costumamos nos preocupar com as regras, com os números, as mecânicas e os dados, que transformam nossos cenários em coisas vivas e dinâmicas, adicionando aquele realismo que é instigante na mesma medida em que é desafiante. São esses sistemas, já conhecidos nossos, que nos dão segurança e fazem o mundo que imaginamos saltar aos olhos e trabalhar bem como as engrenagens de um relógio, impulsionando os braços do tempo que gastamos planejando nossas campanhas.

Talvez a mecânica, as regras e o sistema que vamos usar sejam nossas primeiras e mais importantes preocupações, ao que mais nos dedicamos e, algumas vezes, nossa única preocupação. Debruçar sobre um sistema e transportar para ele personagens, aprender suas habilidades, como elas funcionam com as mecânicas, imaginar os cálculos dos dados para que tudo seja bem perfeito e quase automático, a perfeita máquina, funcionando quase automaticamente — e, quando isso acontece, nos traz um sorriso ao rosto e a sensação de um trabalho bem feito.

E então, alguns de nós, param por aí. Afinal, com todo o sistema e a mecânica prontos, as coisas devem quase caminhar sozinhas, certo?

Errado.

Como jogadora de RPG há anos, e como quem já mestrou por algum tempo também, posso assumir que carrego comigo esse pecado. Mas, aquele que nunca pecou por excesso de zelo pelo sistema e pelas mecânicas, que atire a primeira pedra!

Não é raro que os mestres, os mais responsáveis por estabelecer um cenário e uma campanha, deixem de lado a narrativa que estão tentando trazer, para trabalhar um pouco mais no sistema — seja porque acreditam que essa é a essência mais importante de um jogo ou porque imaginam que a história irá se construir conforme o jogo for acontecendo. E embora nenhuma dessas hipóteses esteja completamente errada, também não estão corretas, e trazem o perigo iminente de sua campanha se tornar repetitiva e enjoativa, de seus jogadores se desanimarem e perceberem que nada importa para eles e de que todo mundo tenha uma experiência ruim que os deixe com um gosto amargo na boca e nenhuma vontade de retomar qualquer partida de qualquer RPG.

Ninguém deseja que sua campanha seja lembrada como desanimadora, frustrante ou maçante. E não existe nada mais aterrador do que imaginar que seu jogo seja o motivo de alguém achar que RPG é perda de tempo, de deixar aquelas horas que deveriam ser de mais pura diversão, somente como um gosto amargo de frustração em alguém. Por isso, está na hora de reconhecermos a grande importância de uma boa narrativa, os passos que levam a uma experiência divertida, emocionante e empolgante para todo mundo, revendo até mesmo alguns conceitos já tão engastados em nossas mentes que, por muitas vezes, sequer refletimos sobre eles.

A Mecânica serve à Narrativa.

Clock Maker by Marshmallow21
Clock Maker by Marshmallow21

Por mais que, na grande maioria das vezes, a mecânica seja nossa maior preocupação, a verdade é que ela nada mais é do que uma serva da narrativa.

Sim, exatamente isso, a mecânica é tão somente uma serviçal da narrativa. E se você está encarando essa afirmação com um rosto de assombro mesclado com indignação, está na hora de respirar fundo, ser corajoso e mergulhar de vez nesse dogma tão esquecido por nossos templos e por nossa fé, quase escondido e enterrado: a verdade é que o sistema existe como uma forma de transformar a narrativa em algo mais real, mais próximo do que seria, uma forma de implementar o role play como algo do cotidiano, onde as pessoas têm habilidades distintas, onde a sorte e fatores externos contam para os acontecimentos.

O sistema, as mecânicas, tudo isso existe para transportar sua história e sua campanha para algo divertido, interativo, algo vivo. Mas, essencialmente, é o sistema que serve a uma história e não o contrário. E essa é a primeira coisa que esquecemos e, ainda assim, a última que deveríamos esquecer. Sua história é a joia da coroa, é ela que faz o sistema existir, é o seu mundo, sua visão, sua campanha que é a estrela de verdade. Dedique mais tempo a ela, pense sobre seu cenário, sobre o clima que você quer, sobre o mundo que você imagina, o background dos acontecimentos, dedique seu tempo e mais carinho à construção do seu mundo e sua história, pois esse é o alicerce de seu jogo, é o que segura tudo firme no lugar, principalmente os seus jogadores.

É necessário ter flexibilidade para acomodar os Personagens de seus Jogadores à sua Narrativa.

Pathfinder by Skiorh
Pathfinder by Skiorh

No sétimo dia, Ele descansou, feliz com tudo aquilo que tinha criado e viu que seu mundo era perfeito… até que os seres que tinha construído para viver nele resolvessem se rebelar e acabar com seu cenário perfeito.

Após construir seu mundo, sua mecânica, pensar em sua história do começo ao fim, é preciso encarar outro dogma: tudo o que você criou com todo carinho e amor, tudo isso também existe para servir aos jogadores e acomodá-los, e você, Mestre, é aquele que cumpre o dever que não pode ser renegado: você criou o mundo perfeito, mas… não para você. E como qualquer Criador, você deve ter em mente que as pessoas que habitam o seu mundo são completamente imprevisíveis.

Tenha em mente que nada sairá como você imaginou no princípio, que você pode criar uma história principal maravilhosa e rica e, de repente, seus personagens estarem mais interessados em explorar uma rota que você nunca nem sequer considerou. Ao invés de salvar o mundo da invasão de seres que se escondem na Penumbra, aquele bardo pode estar muito mais interessado em conseguir a mão da rainha em casamento porque, assim, ele nunca mais passará fome novamente.

Essa imprevisibilidade é o que torna o jogo vivo, são os personagens que fazem tudo interessante e você deve aprender a ser flexível, aceitar isso. É importante também prestar atenção nos personagens criados por seus jogadores, até mesmo auxiliá-los quando eles possuem alguma dificuldade. Estamos nos tempos modernos, existem várias ferramentas espalhadas na internet que podem ajudar, desde a criação de um nome, a um rosto e até mesmo sugestões de personalidade e outras características. Ajude seus jogadores quando eles mais precisarem de inspiração, aprenda sobre os personagens deles, incorpore suas histórias pessoais à sua narrativa, faça-os se sentirem vivos e importantes naquele mundo, não apenas pessoas que foram despejadas ali e não se encaixam. Faça isso e tenha jogadores satisfeitos e empolgados e descanse no sétimo dia com a certeza que você realmente fez algo perfeito.

O sentimento de Recompensa da Narrativa não deve ser subestimado ou esquecido.

Our Final Journey by WhimsicalBlue
Our Final Journey by WhimsicalBlue

Quem nunca saiu da sala de cinema sentindo aquela gritante frustração e a vontade de ter o dinheiro dos ingressos ressarcidos? Se uma empresa desenvolvedora do tamanho, importância e estrutura como a Bioware pode ter seus escritórios inundados de protestos pelos dez minutos finais de um de seus jogos mais importantes, é necessário que aceitemos que podemos enveredar pelo mesmo caminho.

Um mundo pode ser bem construído, com uma história presente, personagens inseridos, mecânica redonda e ainda assim ser extremamente frustrante por não possuir nenhum tipo de recompensa. E aqui, não estamos falando de pontos de XP ou outro tipo de recompensas materiais, mas aquele sentimento de recompensa que apenas a narrativa pode trazer a um jogador. Nem tudo é sobre XP e algumas das experiências mais prazerosas que eu já tive enquanto jogadora me trouxeram pouca ou quase nenhuma gratificação material, mas uma satisfação a nível narrativo tão profunda que nem todos os pontos de experiência do mundo poderiam comprar.

Não frustre demais seus jogadores. Não os faça cair em um poço profundo após eles escaparem de um calabouço, um labirinto, dos guardas minotauros de um rei louco, sem nunca receber nem sequer um afago na história. Faça com que eles sintam que o que estão fazendo importa de verdade, que toda a jornada deles levou a esse momento, a essa recompensa, que todo o sofrimento, as horas investidas, toda a jornada levou a algo que possam se orgulhar. Ainda que você os jogue em algo mais assustador e desafiante no próximo minuto, é necessário aquele minuto de respiro, aquele momento em que tudo vale à pena, afinal, para que continuar uma jornada que nunca vai resultar em lugar algum?

Não tenha medo, se algum jogador teve uma ideia brilhante para resolver um puzzle que nem você tinha imaginado, recompense-o por isso, é assim que você instiga a criatividade de seus jogadores e os deixa motivados, satisfeitos, querendo sempre mais.


Em próximas matérias, traremos ferramentas para enriquecer sua narrativa, ajudar na construção de mundo e de personagens, mas nunca se esqueça de tudo o que é essencial: abrace seu lado criativo, não se esqueça nunca de sua narrativa, que a mecânica existe para servir de ferramenta ao funcionamento do seu mundo e, da mesma forma, que você é o maestro de uma campanha mas os personagens de seus jogadores são as verdadeiras estrelas e que devem ser recompensados pelo seu esforço, devem sentir que estão cumprindo algo importante e que não é apenas o vazio do vácuo esperando atrás da próxima porta.

Cumpra esse desafio e veja como sua experiência jogando RPG se tornará mais rica e prazerosa, para todos os envolvidos!

10 Comentários

  1. Olá!
    Estréia maravilhosa, Cammy. Um ótimo texto, uma profunda reflexão e um tema muitas vezes esquecido. Senti falta apenas de uma pequena apresentação sua e da sua coluna. 🙂

    Até and Bye…

    • Cammy Nuwandasays:

      Olá, Lipe!

      Obrigada por ler, fico feliz que tenha gostado! Realmente, esse é um tema muito importante, mas que poucas vezes damos atenção, mais focados em outras coisas. E, nossa! Essa vida de druid e rogue se espalhando e me fazendo esquecer de apresentar a mim mesma e minha coluna! Quem fica nas sombras dá nisso! hahaha Valeu pelo toque ;D Vai ficar para a próxima, já deixei anotado aqui! Muito obrigada!

      Abraços!

  2. Vitor Matias Chavessays:

    Adorei, aguardo pelos próximos e na esperança de sair algumas dicas de criação de enredos e organização de campanhas hehe

    • Cammy Nuwandasays:

      Oi, Vitor!

      Muito obrigada por ler e por comentar! Que bom que você gostou do artigo, e pode ficar na esperança sim, fique de olho nos próximos artigos ;D

      Abraços!

  3. Texto muito bom, realmente tem mestres que ficam presos a regras e ao seu mundinho fechado e não dão a importância necessária para atuação dos jogadores e isso é muito triste e frustante mesmo…

    • Cammy Nuwandasays:

      Oi, Gemaba!

      Obrigada por ter lido e comentado, fico muito feliz que você tenha gostado do artigo! E sim, infelizmente muitos mestres não percebem o quão frustrante isso pode ser para um jogador, porque mecânica e narrativa são feijão com arroz e são melhor apreciadas juntinhas no prato. Mas a gente aprende! Obrigada mesmo por comentar, e fique de olho nos próximos artigos também, hein? =D

      Abraços!

  4. do Montesays:

    Curti a postagem. Vai me ajudar heheheh

    • Cammy Nuwandasays:

      Oi, do Monte!

      Ah, obrigada por ler e comentar e fico muito feliz que tenha te ajudado, a intenção era justamente essa ;D ! Fique com a gente pra continuação e para as próximas matérias sobre o tema, quem sabe não te ajude mais ainda?

      Abraços!

  5. Adorei o texto Cammy , concordo com o que disse sobre a mecânica servir narrativa. Rolar dados é legal, mas sem a narrativa se torna mecânico e tira a magia do RPG. Enfim parabéns, esperarei pelos próximos artigos.

    • Cammy Nuwandasays:

      Oi, Mallien!

      Obrigada por ter lido e comentado! Muito da magia de um RPG é o mundo onde ele é narrado, os personagens, a quest em si, não apenas os dados – que são parte indispensável do processo sim (arroz com feijão), mas parte, não todo. Fique com a gente para os próximos capítulos, espero que você goste tanto quanto este e que eles possam ajudar! Muito obrigada! ;D

      Abraços!

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