Drenos cirúrgicos: para que servem e como cuidar deles em casa

Dr Stefano Fiuza cuidados após cintilografia da tireoide​
A cena é clássica no dia da alta hospitalar: o paciente está com a mochila pronta, o coração aliviado por voltar para casa, mas os olhos não saem daquele pequeno tubo de silicone que brota de sua pele, terminando em uma bolsinha ou uma sanfona plástica. “Doutor, eu vou mesmo levar isso para casa? E se eu puxar dormindo?”. Essa ansiedade é legítima. Para quem não convive com a rotina de um centro cirúrgico, o dreno parece um intruso, um lembrete de que o corpo ainda está vulnerável. No universo da cirurgia de cabeça e pescoço, onde operamos áreas nobres e compactas — como a tireoide, as glândulas salivares ou as cadeias de linfonodos do pescoço —, o dreno não é um sinal de que algo deu errado.

Pelo contrário, ele é um sentinela silencioso. Imagine que fizemos uma reforma estrutural em uma casa: mesmo que o encanamento tenha sido refeito com perfeição, nas primeiras horas após a obra, é natural que surja uma umidade residual. No corpo, após a retirada de um tumor ou de uma glândula, sobra um espaço vazio sob a pele. Se o organismo produzir um excesso de líquido inflamatório (seroma) ou se houver um pequeno sangramento (hematoma), esse fluido precisa sair. Se ele ficar preso no pescoço, pode causar pressão, dor e, em casos mais raros, dificuldade para respirar. O dreno é a via de escape que garante que a cicatrização ocorra “colando” os tecidos novamente.

Lembro-me de um paciente, o Seu Antenor, que operou a parótida. Ele olhava para o dreno de sucção (aquele que parece uma granada de plástico) como se fosse um dispositivo de alta periculosidade. Eu expliquei a ele que o segredo estava no vácuo. Para que o dreno funcione, aquela “bolinha” precisa estar murcha, pressionada. É essa pressão negativa que “chupa” suavemente o excesso de líquido lá de dentro. Cuidar disso em casa é muito mais simples do que parece, mas exige um ritual de higiene. O primeiro passo é o mais básico e, por vezes, o mais negligenciado: lavar as mãos. Antes de manipular o dreno, água e sabão são seus melhores amigos. Uma vez por dia, ou quando o reservatório estiver quase cheio, é preciso esvaziá-lo. Você abre a tampinha, despeja o líquido em um copo graduado para medir o volume (isso é fundamental para sabermos quando é hora de retirar o dreno no consultório) e, antes de fechar, aperta a sanfona ou a pera para expulsar o ar e reativar o vácuo.

Uma técnica que sempre ensino no pós-operatório é a “ordenha”. Às vezes, um pequeno coágulo de fibrina pode obstruir o tubo, como se fosse um canudo entupido. Com uma mão segurando a base do dreno junto à pele (para não puxar e causar dor), você usa a outra mão para deslizar os dedos pelo tubo, apertando-o, em direção ao reservatório. Isso mantém o fluxo livre. E o que deve acender o sinal de alerta? O aspecto do líquido nos conta uma história. Nos primeiros dias, é comum que ele seja de um vermelho vivo, como sangue. Com o passar do tempo, ele vai clareando, ficando rosado ou amarelado e transparente. Se, de repente, o líquido que era clarinho voltar a ser sangue vivo e encher o frasco rapidamente, ou se o pescoço começar a inchar e endurecer, é hora de ligar para a equipe médica. Outro ponto de atenção é a febre ou se a pele ao redor do dreno ficar muito vermelha e quente — sinais que podem sugerir uma infecção.