Uma visão geral dos livros de técnicas narrativas

Esta semana retornamos com uma postagem antiga mas com uma nova roupagem para somar-se a discussão do Guia para Narradores Iniciantes I e II. Aqui, a nossa proposta é fazer uma pequena visão geral sobre os livros de técnicas narrativas que acreditamos serem de leitura imprescindível e que podem trazer interesse aos velhos e novos narradores à ampliar suas capacidades de narração. E em cada um dos livros abordados nesta postagem, há um link para uma resenha mais aprofundada feita aqui mesmo pela Espaço Mítico no intuito de socializar aos narradores brasileiros suas ideias.

“Jogos de Interpretação muitas vezes se assemelha a trabalho: Nós planejamos com antecedência, pensamos demais. Pare de trabalhar e comece a jogar. Quanto menos você trabalhar, melhor você irá jogar.”
“Jogos de Interpretação muitas vezes se assemelham a trabalho: Nós planejamos com antecedência, pensamos demais. Pare de trabalhar e comece a jogar. Quanto menos você trabalhar, melhor você irá jogar.”

 

Meu interesse em ler livros sobre técnicas narrativas nasceu da minha necessidade pessoal de tornar mais dinâmica o processo de preparação de meus jogos. A vida adulta chegara com bastante força e meu tempo livre para o hobby praticamente havia zerado. Assim, garimpei vários dos mais falados livros sobre narração, tais como “Hamlet Hit Points”, “Robin’s law of good game mastering”, “Never Unprepared” (este lançado recentemente em português pela editora Pensamento Coletivo com o nome de “Despreparado? Nunca!”), “Play Unsafe” e “The Lazy Dungeon Master”. Tendo como tarefa realizar uma análise das dicas e informações que estes livros que abordam o tema narrar RPG tem para contribuir com os narradores e jogadores brasileiros e, principalmente, dar acesso a quem não sabe ler inglês poder inserir essas técnicas em seus próximos jogos. Somo a esse debate o fato de que recentemente tenho visto diversas discussões sobre “a maneira certa de jogar RPG” e acredito que trazer a opinião dos próprios game designers (como o Robin Laws) para o debate pode evitar a proliferação de muitas opiniões confusas sobre o assunto.

"Jogos de RPG são entretenimento; seu objetivo como GM é tornar seus jogos tão divertidos quanto for possível para todos os participantes." Robin Law
“Jogos de RPG são entretenimento; seu objetivo como GM é tornar seus jogos tão divertidos quanto for possível para todos os participantes.” – Robin Law.

 

Em Hamlet Hit Points, Robin D. Laws, designer de Fenq Shui, HeroQuest, Esoterrorist, The Dying Earth e o DM Guide de D&D. Neste livro ele desenvolveu um sistema para analisar histórias vindas do cinema, livros e séries para melhorar nossa experiência no RPG. De acordo com ele, nós somos atraídos a estas narrativas devido a habilidade dos autores em “continuamente modularem nossas respostas emocionais.” Ou seja, aquele bom livro/filme que te prendeu até o fim o fez porque souberam alternar momentos de terror, ação e suspense, sem nos deixar cansados com apenas uma dessas emoções . Para Laws, se aprendermos a narrar utilizando estas técnicas, a chance de melhorar a nossa experiência e a de seus jogadores aumenta consideravelmente.

No Robin’s laws of good game mastering, criado em 2002 com a edição de Steve Jackson (GURPS), o autor coloca a ideia de que “There is only one way to roleplay: the way that achieves the best balance between the various desires of your particular group.” – que em tradução livre fica algo como “Existe apenas uma maneira de jogar RPG: a maneira que melhor balanceie os vários desejos de seu grupo em particular.” Ele apresenta o argumento de que nenhum grupo de RPG joga igual, assim como em todo grupo há diversos tipos de jogadores e que cada um gosta de jogar de uma determinada maneira, sendo papel do narrador conciliar estes desejos. Este argumento se baseia no Aspects of Adventure Gaming – Aspectos do Jogo de Aventura – criado por Glenn Blacow nos anos 80 que consistia em dividir os jogadores de RPG em quatro tipos: Powergamer; Role-player; Wargamer; Story teller (futuramente farei um artigo aqui sobre isso). Robin também traz diversas técnicas de improviso, construção de campanhas, como escolher o melhor sistema para você e muito mais.

O Despreparado, Nunca (Never Unprepared), não pretendo analisar aprofundadamente por já ter sido amplamente discutido em vários blogs brasileiros em seu lançamento em português, mas que vale a pena mencionar como forma de comparação com os outros livros de narração listados aqui. O autor expõe diversas ideias de como organizar seu jogo sem perder muito tempo, principalmente porque vários dos narradores antigos de RPG, hoje em dia, tem que conviver com os afazeres da vida adulta e ficam com dificuldade de preparar seus jogos.

Em Play Unsafe, apresenta-se a ideia do jogo Zen. Pois, quanto menos o narrador fizer, mais ele escutará os jogadores e poderá aproveitar as ideias e incentivos deles no jogo.  Apresentando uma série de técnicas, semelhante em conteúdo com o Despreparado mas com execução mais voltada para o improviso. Graham Walmsley, seu autor, solidifica esta justificativa dizendo que “Roleplaying games sometimes seem like work: we plan ahead, we think too much. Stop working and start playing. The less you are working, the better you play” – traduzindo como “Jogos de Interpretação muitas vezes se assemelham a trabalho: Nós planejamos com antecedência, pensamos demais. Pare de trabalhar e comece a jogar. Quanto menos você trabalhar, melhor você irá jogar.”

Por fim, um dos meus preferidos, é o The Lazy Dungeon Master (O Mestre da Masmorra Preguiçoso). Michael E. Shea criou um livro voltado exclusivamente para facilitar a vida do narrador com todo tipo de técnica, ideia e maluquice que torne o processo de narrar ultra simplificado. Consistindo dede tabelas com nomes aleatórios de NPC’s a como preparar um kit do narrador preguiçoso. O livro é apenas a ponta do iceberg, em seu blog, ele desenvolve mais materiais voltados para suas dicas apresentadas neste livro para os mais diversos sistemas de RPG, além de ter vídeos com dicas de preparação de um “escudo personalizável” do narrador preguiçoso. Aqui o blog do autor.

“Existe apenas uma maneira de jogar RPG: a maneira que melhor balanceie os vários desejos de seu grupo em particular.”
“Existe apenas uma maneira de jogar RPG: a maneira que melhor balanceie os vários desejos de seu grupo em particular.”

 

E aqui eu concluo esta visão geral dos livros narrativos com uma reclamação do Robin, que ocorre em grande parte dos RPGs no mercado. Ele expõe o fato de que a maioria dos jogos, para darem certo, necessitam da boa atuação do narrador, porém, estranhamente, as seções de dicas e técnicas de narração possuem um espaço quase mínimo em relação a todas as outras seções dos livros de RPG. Tornando a arte de narrar ensinada quase que completamente de forma oral e passada de narrador veterano para o novo narrador/jogador o que gera o efeito daquela brincadeira infantil do Telefone, que no caminho da comunicação, grande parte das boas ideias de narração são perdidas. Por isso, discutir a narração e suas nuances é tão importante quanto qual o sistema de regra utilizado e que devemos deixar por escrito e solidificado para as futuras gerações de jogadores.

Comentários

2 Comentários

  1. Gostei bastante da postagem! Sou jogador, mas para ajudar nos eventos e encontros eu narro. Jogo desde 1992.

    E como os sistemas não me ajudam, crei meu sistema simplificado. E neste processo, que aceito crianças, iniciantes e crianças iniciantes, algumas dessas pessoas querem narrar ou já narram e querem evoluir. Então estou organizando material para iniciar oficinas e deixar em PDF por aí.

    Sobre a parte dos livros serem menos dedicadas à orientação do mestrar, o Dragon Age é excelente neste sentido.

    Também sou professor, educação básica e superior, Pedagogia, mestrado sobre subjetivação de docentes-narradores.

    Meu blog: http://www.rpgsimples.blogspot.com

    Não sei se serei notificado de respostas. [encontrei este campo, abaixo da opção do Facebook, receberei comentários e novas postagens no email]

    Abraços!
    Gilson Rocha

    • Jokasays:

      Olá Gilson. Obrigado pelo comentário. Espero que sua iniciativa de criar seu próprio jogo tenha dado bons frutos para iniciantes e principalmente, para você. É muito ruim quando, como jogadores/narradores o sistema não atende nossas necessidades. Apesar que hoje o mercado está bem servido de materiais de todos os tipos e gostos que podem ajudar a quem está insatisfeito.

      Sua atitude de trazer novos jogadores (de qualquer idade e gênero) é tão importante pro hobby que eu não sei por onde começar a agradecer a você. Precisamos encarar esse desafio de trazer novatos e não deixar o hobby morrer!

      Quanto a sugestão do Dragon Age, eu tenho ciência de outros RPGs mais “novos” que já possuem essa preocupação com BOAS (e o caps é proposital pra dar enfoque) explicações narrativas, porém, quando comparamos em relação a todo o mercado – principalmente o nacional – ainda é uma preocupação recente, ínfima e que eu espero que um dia mude mais. Como outras sugestões de RPGs assim, além de Dragon Age, eu poderia citar aqui Blood & Honor e o novo 7th Sea que são verdadeiras aulas de narração e contrato social em jogos.

      Depois poderíamos trocar algumas ideias e materiais sobre RPG e Educação, que para mim é uma preocupação relativamente nova mas que desejo de todo coração implantá-la nas escolas que trabalho. Vou dar uma checada em seu blog sim!
      Abraços!

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