Toda rolagem importa!

E a Espaço Mítico de hoje retorna às origens com mais um artigo sobre narração! Dessa vez trago a vocês leitores, uma preocupação mecânica relativamente nova, mas que vem sendo discutida e aplicada em diversos RPGs indies e mainstream ao longo dos últimos anos: Toda rolagem importa.

Pode parecer bastante obvia essa afirmação e provavelmente alguns vão me chamar de maluco por dizer isso em alto e bom som. Claro que toda rolagem importa! Todos as ações dos jogadores e narradores dependem das rolagens de dados (ou de alguma outra maneira mecânica de resolução de ações, como muito bem abordado no artigo de Gabriel Lopes). Então qual seria a novidade que estou tentando trazer para vocês?

Para deixar isso um pouquinho mais claro, vou começar falando de um novo jogo de RPG que está sendo desenvolvido lá fora e batizado de Open Legend. Nele, uma das maiores preocupações de seu game designer, o Brian Feister, é tornar todas as rolagens dos jogadores importantes para o desenvolvimento da história sendo contada. Para facilitar essa “nova” forma de pensar, ele encheu seu material com exemplos de como lidar com sucessos, sucessos com custo e falhas para cada um dos atributos do jogo e como interpretar os mesmos dependendo da dificuldade do teste.

E aqui finalmente chegamos ao principal do questionamento e ideia que apresento a vocês, leitores. Para Brian, toda rolagem deve direcionar a história para uma nova direção, seja ela para o bem ou para o mal. Uma rolagem mal sucedida não deveria fazer o desenvolvimento da história parar, nem deve ser facilmente anulada por meio da rolagem bem sucedida de outro personagem jogador.

Essa mesma mecânica pode ser vista em diversos outros jogos de RPG, como o Fate, Dungeon World, 13ª Era, 7º Mar e muitos outros. Porém, mesmo com os exemplos dados nestes jogos e até mesmo com os esforços destes game designers em incentivarem a mecânica do sucesso com custo e por consequência, tornar toda rolagem importante, muitos narradores ainda se atrapalham ou sequer usam tal técnica narrativa, desperdiçando centenas de rolagens que poderiam simplesmente impulsionar a história para frente.

Vou dar um exemplo muito comum em muitas mesas de D&D que tenho jogado/visto para ilustrar a situação:

O grupo, composto por um warlock, um mago, um guerreiro, um paladino e um ladino, se aproxima de uma porta cheia de inscrições arcanas antigas. Imediatamente, o mago do grupo toma um passo a frente e diz:

“Eu vou checar as inscrições da porta!”

O narrador concorda com um aceno da cabeça e entrega o d20 para ele. O jogador sacode o dado na mão e o rola na mesa, tirando um 5. Imediatamente ele soma seus modificadores do teste e descobre que seu total é 12. Ele olha para o narrador, que responde:

“É, você falhou. As inscrições fogem bastante da sua memória da época em que estava estudando com seu mestre na torre e…”

O jogador do Warlock interrompe a fala do narrador e diz:

“Vou tentar também!”

Ele rola o d20 e obtém um total de 18. O narrador sorri para ele e afirma que ele conseguiu passar a dificuldade do teste. Em seguida narra para o Warlock como ele ativa as runas mágicas que revelam um portal extraplanar na passagem do que deveria ser uma porta normal.

A rolagem do mago tornou-se completamente inutilizada e tirou totalmente o foco da narrativa do mago para o warlock apenas pelo primeiro ter ido mal nos dados. Desperdiçando momentos preciosos do jogo, estagnando a narrativa e literalmente diminuindo os momentos em que o jogador do mago está sob os holofotes. Agora imagine a mesma cena, mas o paladino também possuindo a perícia conhecimento arcano. Desta vez, o warlock também falha e antes que o narrador possa finalmente descrever o que ocorre, o paladino grita quase em desespero “Vou rolar também!” e dessa vez consegue um 20. O foco narrativo mais parece uma peteca à mercê dos dados e da sorte.

…Ou ainda pior, os três falham e o narrador simplesmente responde com um “Vocês não descobrem nada de interessante ou de valor no lugar.”

Agora vamos rever a cena descrita acima, mas utilizando a filosofia de toda rolagem importa.

O grupo se aproxima de uma porta cheia de inscrições arcanas antigas. Imediatamente, o mago do grupo toma um passo à frente e diz:

“Eu vou checar as inscrições da porta!”

O narrador concorda com um aceno da cabeça e entrega o d20 para ele. O jogador sacode o dado na mão e o rola na mesa, tirando um 5. Em seguida, ele soma seus modificadores do teste e descobre que seu total é 12. Ele olha para o narrador, que responde:

 

Neste momento, o narrador teria duas opções: conceder um sucesso com custo ao jogador ou o jogador falhar, mas a história progride. Vamos usar o primeiro exemplo.

Enquanto você catucava as runas e as lia sussurrando conforme traduzia, sem querer ativa a magia presa nas inscrições e a porta revela-se como um portão extraplanar, que no momento em que é aberto, o suga como um ralo de pia, puxando para sabe lá os deuses aonde. Você vai parar em meio a várias criaturas estranhas e alienígenas que imediatamente o têm como um invasor e o atacam. Mas não se preocupe, o portal está aberto atrás de você, só que os monstros vão tentar devorá-lo enquanto os seus companheiros tentam entender o que aconteceu do outro lado do portal…

O jogador conseguiu o que queria, que era ativar ou descobrir o que eram aquelas inscrições arcanas na porta, mas por ter falhado esse sucesso teve o custo de colocá-lo de alguma forma em perigo ou causar a ele a perda de algum recurso. Agora vamos ver um exemplo da segunda opção.

Você tenta entender o que está escrito na porta, mas acaba levando tempo demais, quando de repente todos vocês ouvem barulho de passos; um feiticeiro e alguns guardas surgem no fundo do corredor, surpresos pela presença de vocês ali. Mago, você tem plena certeza que a resposta para ativar a porta está de posse do feiticeiro. Rolem iniciativa!

Percebem a diferença na narrativa? Ao invés de estagnar o andamento da história, complicamos a vida do jogador com sua falha, mas não jogamos fora seu esforço no jogo. Tornamos sua rolagem importante, sendo ela boa ou ruim para ele. Não deixamos a importância das ações dos jogadores serem dependentes apenas na sorte ou no azar, e usamos o resultado dos dados para levar o jogo sempre adiante.

Mas aplicar este pensamento em jogo não é fácil, pois velhos hábitos custam a morrer. A maioria de nós, jogadores ou narradores, estamos acostumados a agir como o warlock da história (ou ainda o paladino!) e a responder como o primeiro relato do narrador a essas situações. Então, o que podemos fazer para mudar isso?

O narrador precisa ter tempo para interpretar os resultados de uma ação falha para que ele possa garantir que cada rolagem importe. Os jogadores vão precisar fazer um esforço especial em evitar atrapalhá-lo neste processo. As situações a seguir são muito comuns na maioria das mesas e é nelas que nós devemos estar especialmente vigilantes de forma a dar espaço ao narrador para interpretar os resultados de uma rolagem que falhou:

  • Rolagens de Percepção para encontrar passagens secretas ou objetos escondidos
  • Rolagens de Intuição (ou empatia) para notar quando alguém está mentindo
  • Rolagens de Persuasão para convencer um personagem não jogador a fazer algo
  • Rolagens de conhecimento para relembrar uma informação útil

O principal é reconhecermos que o resultado estático passar/falhar não é divertido para quem joga. Mas se passamos a usar o “toda rolagem importa” adicionamos uma certa complexidade ao jogo que acaba estimulando o narrador a fazer mais improvisos das jogadas de dados. Assim, quando um jogador apenas falha na rolagem, não é divertido por não sair absolutamente nada do resultado da ação.

Interpretando um sucesso com custo

Quando um jogador falha numa rolagem, o narrador deve escolher se permite que a ação tenha um sucesso com custo. Neste caso, o jogador consegue o que queria originalmente, mas ocorre algum tipo de consequência ou custo inesperado. A lista a seguir não cobre todas as alternativas possíveis, mas pode ajudar a dar ideias sobre como interpretar sucessos com custo em seus jogos futuros.

  • Colocar um personagem em perigo
  • Gastar um recurso
  • Fazer um inimigo ou perder um amigo
  • Deixar passar um detalhe importante
  • Perder tempo
  • Atrair atenção
  • Encontrar algo que você não estava procurando

A coisa mais importante para entender é que um sucesso com custo continua sendo um sucesso. Ele apenas vem com algum tipo de custo: Você encontra o rastro dos orcs que você estava procurando, mas ela o leva para uma floresta infestada de ursos-coruja e assim por diante.

Interpretando falhas, mas a historia progride

Uma falha não deve ser apenas uma falha. Ela deve ter um elemento importante para a história do jogo, daí o significado de “a história progride”. Progredir, entretanto, pode significar várias coisas diferentes. Quando o narrador utiliza esta opção, algumas destas interpretações podem lhe dar uma ideia de como a história pode progredir apesar da falha.

O jogador encontra uma oportunidade para o sucesso. Mesmo que sua magia falhe em dispersar a maldição que aflige seu aliado, você descobre num estudo posterior que uma erva rara que cresce numa floresta próxima pode lhe dar o poder necessário para fazê-lo.

O perigo aumenta. Você falha em pular o abismo enquanto foge de um bando de canibais e cai ao longo de um penhasco, tomando algum dano. Quando você retoma os sentidos, percebe que não está apenas separado do resto do seu grupo, mas também que caiu no ninho de um Roca.

A informação é falsa. Você pensa que conseguiu uma boa ideia das intenções do senador durante suas negociações. E parece que ele está completamente a favor do seu plano de negociar uma aliança entre os planetas vizinhos. Quando você sai no dia seguinte, percebe que estava errado e que os guardas que o prefeito enviou para garantir sua segurança, eram na verdade assassinos.

O narrador, então, deve decidir o quão ruim uma ação de rolagem falha pode chegar a ficar, e as vezes isso pode ser realmente ruim. Enquanto alguns dos exemplos parecem piores que os outros, todos eles dividem um fator em comum: eles mantém a narrativa andando. A falha nunca é apenas uma falha.

E os sucessos?

Uma rolagem bem sucedida é de longe a mais fácil de interpretar para o narrador: ela sempre envolve conceder ao jogador aquilo que ele esperava conseguir. Se ele rolou abrir um portal mágico, então ele abriu. Se ele estava tentando entrar escondido na casa, então conseguiu. Se ele estava tentando esfaquear um bandido, então ele o esfaqueou. E assim por diante. Em alguns casos, o resultado de um sucesso já estava escrito nas regras, como por exemplo, sucesso em um teste de acerto ou de perceber, para não ser surpreendido. Mas às vezes, é necessário interpretar o que acontece quando o jogador tem sucesso.

Há dois fatores primários a se considerar quando for necessário julgar um sucesso:

Não role se não houver sobre o que ter sucesso. Por exemplo, se um personagem quer procurar por um clérigo na cidade em que está, mas o narrador sabe que não existe nenhum ali, ele não precisa fazer com que o personagem realize uma rolagem pois não há nada a se encontrar; a rolagem não importa. Ela precisa ter significado para ser usada!

Descreva seu sucesso. Deixe que os jogadores interpretem como conseguiram desarmar a armadilha de gás, ou como encontraram aquela passagem secreta atrás da estante de livros. Às vezes os jogadores não terão informações suficientes para descreverem como conseguiram e o narrador terá que fazê-lo, mas sempre que possível, permita que os jogadores brilhem e descrevam.


E é isso, caros leitores! Espero que esta postagem ajude a deixar a ação rolar mais fluida e interessante em seus próximos jogos . Diga-nos o que achou da postagem e/ou deixe alguma experiência de jogo sua sobre o assunto! E para aqueles que acharam interessante essa filosofia do Open Legend, fiquem ligados que muito em breve estaremos trazendo a resenha de um playtest. Até!

Comentários

1 Comentários

  1. Olá!
    Fuderoso! Mais nada a declarar.

    Até and Bye…

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