Terra Devastada: Edição Apocalipse

Saudações, camaradas!

Hoje venho falar a vocês sobre o Terra Devastada: Edição Apocalipse (2016) um cenário/sistema nacional de autoria do John Bogéa, que escreve, desenha e diagrama a obra, com sua primeira edição lançada em 2011 pela editora Retropunk. Seu sucesso foi tão grande, que os livros ficaram esgotados por anos e penei para conseguir minha cópia da primeira edição.

Em minha humilde opinião, John Bogéa é o grande autor do cenário nacional, com outro trabalho do mesmo período — Abismo Infinito — que considero uma obra ímpar, devido à sua mecânica de desenvolvimento do personagem em uma interpretação no estilo Lovecraft. Mas vamos ao que interessa:

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Terra Devastada é sobre esperanças, traumas, perdas riscos e consequências. Sobre sobreviver em um mundo arrasado por uma pandemia apocalíptica que transforma a humanidade em monstros débeis, tóxicos e carniceiros. Sobre o desespero dos incautos remanescentes da Terra, fragilizados, exauridos e beirando a insanidade. Sobre cruzar ermos contaminados, cidades devastadas, zonas insalubres, territórios desolados e trilhas nebulosas para além do que se pode imaginar. Sobre estar perdido entre os mortos vivos sedentos por carne fresca e milícias de mercenários desumanos que farão de tudo para pilhar qualquer viajante desavisado. Sobre se tornar uma pessoa pior, calejada, capaz de desapegar de tudo que ama para se manter vivo por mais uma noite. Sobre como lidar com o mundo depois do fim do mundo.

Terra Devastada: Edição Apocalipse, pag. 58

 

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Terra Devastada — primeira edição, 2011

Em sua primeira edição, o sistema apresenta uma mecânica de escolhas de doze características que representam as habilidades dos personagens, podendo conceder e retirar dados para a realização de ações. Status de Condições, que definem o estado do personagem: febril, com fome, cansado, estressado e afins; o Conceito do seu personagem, definido por uma citação que represente o mesmo; o Horror, que define o quão ainda tem de humanidade, ou não; Convicção, que mede o que resta da fé do personagem em seguir conceitos morais; Dramas, que descrevem as experiências pessoas de envolvimento de horror de cada personagem; E por fim, os Trunfos, que são as conquistas importantes e obtidas com muito sacrifícios, onde geralmente o personagem teve que ultrapassar os seus limites. A rolagem de dados consiste em números pares, que são sucessos, e ímpares, que são fracassos.

Como este é um dos meus sistemas favoritos, pretendo fazer alguns comentários sobre a Edição Apocalipse, que refletem o meu entendimento sobre o sistema, com algumas sugestões sobre o futuro da obra no cenário nacional.

Parte 1: O Dossiê do Fim do Mundo – Cenário

Pontos Positivos

Um cenário mais abrangente, apresentado em forma de relatos de sobreviventes (meu estilo de narrativa favorito), com informações sobre as várias regiões do planeta, a gênese da pandemia, relatos do paciente zero e do laboratório responsável pela infecção (Cerberus Lab). Tudo é muito bem encaixando no contexto de exploração imperialista de regiões subdesenvolvidas para experimentos não autorizados.

Pontos Negativos

O Brasil poderia ser melhor explorado, como uma breve situação das principais cidades do país.

Parte 2: Sobreviventes e Refugiados – Regras

A segunda edição é um jogo colaborativo de construção de histórias, onde os jogadores constroem personagens que não serão heróis, mas sim sobreviventes, em um mundo devastado por uma praga que consome cada parte da essência do sentimento de humanidade, que a nossa raça lutou para construir e manter ao longo de séculos, revoluções e golpes.

Pontos Positivos

O que já era simples, ficou ainda mais simples, abordando situações que os jogadores não consideravam claras na primeira edição — apesar de tudo ser interpretativo. Mas para quem exige uma boa exemplificação das regras, ficou excelente.

Os tormentos estão ligados à degeneração da escala Convicção (antigo Horror) e os testes são realizado conforme a gravidade da experiência. A escala de Convicção — pontos que o jogador utiliza para conseguir dados adicionais em uma rolagem — pode ter pontos obstruídos, causando insanidade no personagem (pág. 95). Em relação à primeira edição, as regras ficaram mais simplificadas e claras, deixando claro que Bogéa caminhou em direção ao Abismo Infinito (o que é ótimo) com coisas que particularmente me agradaram.

Para não entregar tudo e estragar a leitura do livro, vou apenas citar que Delírio coletivo é lindo. Animais infectados? Sim, com certeza! Imunes? Existem pessoas imunes (abordei isso em minha segunda campanha)? E os Infectados amalgamados (pág 111)? Porque será que lembrei do rei rato? Será que peguei a referência?

Há também uma boa exemplificação de uma sessão de RPG, que pode ser muito útil para aqueles que estão na sua primeira experiência. Antes que pensem em me crucificar, não estou dizendo que Terra Devastada deva ser uma primeira experiência, mas que a forma como o exemplo foi posto no texto é bastante clara e positiva.

As regras para a rolagem de dados buscando uma resolução envolvem Características, Condições, Circunstâncias e Tormentos. As Características definem o seu personagem e durante sua criação, é sugerido criar características físicas, sociais e mentais.  As Condições são a sua situação atual (o conceito foi expandido na segunda edição), que pode ser positiva ou negativa. O personagem tanto pode estar armado com um rifle quanto sangrando com a perna quebrada. As Circunstâncias do cenário estão presentes nas formações da rolagem de dados, tanto para elementos positivos ou negativos (bem ao estilo Fate). E os Tormentos, que são as experiências traumáticas que o seu personagem passou, podem também influenciar das duas formas a sua rolagem de dados.

A escala de convicção atua como regra de desempate em caso de igualdade de sucessos na rolagem de dados.

Plausibilidade (pág 89) é um guia de como criar características e personagens que atendam à realidade — uma leitura interessante e recomendada (principalmente você, Lucas Bicheiro, que vi comprando o livro).

Pontos Negativos

O processo de morte e transformação tinha uma evolução mais romanceada na primeira edição (pág. 90) e me parecia uma bomba relógio. Na edição atual, está ligado a testes, o que tira um pouco do fator surpresa, que poderia ser abordado interpretativamente.

Parte 3: Cruzada pelo Inferno – Regras Opcionais

Pontos Positivos

A organização de Características por nicho são um verdadeiro Norte para os jogadores durante a criação dos personagens, pois muitos ficam indecisos nesse momento. Alguns elementos narrativos são abordados nesse ponto, entre eles as intervenções narrativas (pág 127), similares aos pontos de destino no Fate, onde o jogador pode negociar intervenções e receber bônus para seus testes. Como iniciar uma campanha (pag 129) e a metodologia dos três atos para a preparação da aventura de forma simples e organizada, são uma grande evolução em relação à edição passada.

A construção de uma história parte de uma série de questionamentos, possibilidades e obstáculos a serem superados

Terra Devastada: Edição Apocalipse, pag 128

Pontos Negativos

O tempo de amadurecimento do personagem, a meu ver, deveria ser após a aventura e não a cada ato, como sugere o livro.

Sugestões

Promover jogos organizados com narradores interessados nas capitais do país e daí reunir as aventuras em uma coletânea que seria disponibilizada online, em formatos PDF, Epub e Mobi, para facilitar o acesso de leitura.

As melhorias feitas nessa segunda edição conduzem o sistema para utilização em qualquer temática, o que me leva a sugerir — para o futuro —  um livro básico apenas com regras, como o Fate Acelerado.

Ao final do livro, encontramos a aventura Terror em Anhanguera. Para acompanhá-la, deixo aqui a aventura Amanhecer Tardio: Parte 3, que faz parte de uma sequência de aventuras que narrei, e o Diário do Sargento Souza, um relato da primeira aventura da série — Amanhecer Tardio: Parte 1.

Ficha editável – PDF

Terra Devastada é um dos meus sistemas/cenários favoritos desde sua primeira edição. É por isso que esta visão não é a de um crítico, mas a de fã, já que não me vejo com referências o bastante para tanto. Ainda assim, gostaria de classificar a obra em uma avaliação que vai de 1 a 5 pontos — e recomendar sua aquisição!

Avaliação: 4,5

Comentários
Lima Mundos Colidem Nomos RPG Terra Devastada

raphalimma

Nascido em 23 de setembro de 1982. Filho de Mércia, Filho de Emília, Natalense, RPGista, Marxista, Cientista da Religião, Historiador, Professor, Pai de Marianna e Theo, Casado com Daniella, Egiptologo, amante da obra de Tolkien e Lovecraft, apreciador de uma boa cerveja. Entusiasta de sistemas narrativistas, enamorando o fate e suas possibilidades. Autor do Medievo RPG. Em constante pesquisa sobre a inserção da narrativa interativa na educação. Ainda procurando uma finalidade para esse mundo.