Star Trek para Fate Acelerado

Eis-me aqui de volta à Encruzilhada dos Mundos, desta vez com a adaptação de uma das minhas séries de TV e cinema favoritas, Star Trek, para um de meus sistemas favoritos de RPG, Fate Acelerado. Acompanha fichas de personagens e naves estelares, audaciosamente indo onde RPGista nenhum jamais esteve!

OK, esta última parte não é bem verdade. Muita gente já narrou e jogou em Star Trek
No último domingo, dia 18 de março, eu havia me agendado para narrar uma aventura one-shot no Encontro Mundos Colidem2 de RPG, no Complexo Geek. E embora estivesse ansioso pela oportunidade (há vários meses que não jogava nada, fosse presencial ou online), acabei sem saber como me decidir entre as várias possibilidades de sistemas e cenários.

Após muita incerteza, acabei decidindo-me pelo gênero ficção científica e por Fate Acelerado como sistema — isso depois de ter voltado atrás duas vezes em jogar o novo RPG da Modiphius, do qual já falei anteriormenteStar Trek Adventures (STA). Mas embora eu adore suas regras e a maneira como abraça meu universo ficcional favorito, confesso que ele é muita coisa para se levar a uma sessão de one-shot, para jogadores novatos, que ainda vão aprender as regras, o cenário (sim, muitos têm apenas uma vaga ideia do que é Star Trek) e o ritmo do jogo.

— Ok, vamos fazer uma versão reduzida das regras — pensei. Comecei a esboçar o que poderia ser retirado, o que poderia ser reduzido e me vi envolvido nesse processo pelo mais menos duas vezes ao longo de semana, indo e voltando entre opções e mais opções e dois tipos diferente de marcadores e combinações de atributos e disciplinas e…
…e me dei conta que STA poderia ser facilmente emulado em Fate Básico. Ele já contava com elementos similares a aspectos, façanhas e perícias de Fate e — espere um instante.

Eu já estava no meio da ficha adaptada em Fate Básico quando me dei conta de que não tinha muito tempo livre pra essa adaptação toda, além de criar uma aventura e ainda fazer pelo menos cinco fichas de personagens (nunca ache que vai dar tempo dos jogadores fazerem as fichas eles mesmo e ainda terem tempo de jogar uma quantidade decente de tempo).

O que fazer?

Senti-me frustrado com a minha incapacidade de decidir entre uma coisa e outra e quase escolhi uma aventura de FAE, veterana de eventos, quando olhei para as disciplinas na ficha de exemplo de STA e dei por mim que a adaptação já estava pronta — mas para Fate Acelerado.

O Personagem

Personagens em Star Trek FAE são muito similares a um personagem tradicional de FAE: três aspectos iniciais, seis abordagens, três façanhas, três pontos de destino e pronto. Mas é aí começam as diferenças.

Aspectos

O aspecto de Conceito deveria informar o tipo de oficial da Federação, sua espécie e algo particular, se fosse o caso. O aspecto de Problema poderia representar algo de sua espécie, cultura ou mesmo uma característica pessoal. E o terceiro aspecto seria uma qualidade pessoal, profissional ou ainda um complemento de alguma característica da sua espécie.

Ainda pensei em adicionar mais dois aspectos — um ligado ao seu papel na nave estelar onde serve e outro sobre a relação com outro personagem da tripulação, mas resolvi deixar isso para os jogadores, se preferissem.
Para invocar uma característica de sua espécie através do seu aspecto de Conceito, o jogador poderia fazê-lo sem o gasto de 1 ponto de destino, mas recebendo apenas um bônus de +1. Estas características poderiam significar diferenças físicas, mentais e culturais, como o controle emocional dos vulcanos, a belicosidade dos klingons, a tenacidade dos Tellaritas ou a percepção do perigo dos kelpianos.

Abordagens

As abordagens foram modificadas para o padrão das disciplinas de STA: Comando, Segurança, Ciências, Leme, Engenharia e Medicina. Além disso, para representar o alto nível de eficiência dos personagens vistos nos filmes e ´series de TV, optei por distribuir valores mais generosos às abordagens: +4, +3, +3, +2, +2, +1.

  • Comando lida com qualquer atividade que envolva planejamento estratégico, comando de uma nave estelar, diplomacia, liderança e autoridade. É a abordagem mais importante dos capitães da Frota Estelar.
  • Segurança é a abordagem para lidar com ações táticas, que exijam o uso de armas, combate corpo a corpo, vigilância e quaisquer formas de lidar com conflitos físicos dentro ou fora de uma nave estelar. Chefes e oficiais de segurança vão dar prioridade a esta abordagem.
  • Ciências abrange ações ligadas ao conhecimento de vários campos científicos e o uso das tecnologias e equipamentos ligados a eles, permitindo formular hipóteses, testá-las e conjurar efeitos assombrosos de seus experimentos. Se você tinha dúvidas sobre qual abordagem o personagem do Sr. Spock ia reeceber o +4, agora não tem mais.
  • Leme representa o conhecimento dos sistemas da ponte de comando de um a nave estelar, como pilotá-la, como usar seus sensores, comunicações, armas, motores e escudos para realizar uma viagem segura e precisa no vazio do espaço. Pilotos e operadores de sensores, armas, comunicações e sistemas auxiliares da nave vão priorizar esta abordagem.
  • Engenharia é o microverso das naves estelares e seus acessórios, anexos, motores de dobra, raios tratores, armas, combustíveis, materiais exóticos, permitindo consertar, modificar e criar tecnologias de viagem interestelar. Qualquer engenheiro da Federação que ame sua nave irá escolher Engenharia para receber o seu +4.
  • Medicina lida com o diagnóstico e conhecimento sobre o tratamento de doenças e ferimentos nas mais variadas espécies da galáxia, além da operação da mais avançada tecnologia médica dos medicamentos que a acompanham. Nem precisa falar que um certo médico da Enterprise original, rabugento, emotivo e apreciador de cerveja romulana escolheu esta abordagem como a sua prioridade.

Façanhas

As façanhas representariam uma habilidade da espécie do personagem (se ele assim desejasse) e/ou habilidades ligadas ao seu treinamento ou personalidade, com o número gratuito padrão de três façanhas. Façanhas adicionais, ao custo de 1 ponto de recarga por cada façanha além das três iniciais, são permitidas — mas não podendo o personagem ficar com menos de 1 ponto de recarga.

Estresse

Para fechar, alguns personagens, dependendo das características físicas da sua espécie, receberam uma caixa de estresse (de valor 4) adicional, representando a dificuldade em serem subjugados, fosse por um motivo ou por outro.

Mas isso funciona?

Durante o jogo, os jogadores conseguiram uma boa sinergia como se estivessem na ponte de comando, criando vantagens uns para os outros — incluindo um aspecto criado pelo jogador do piloto, a Manobra Voken, que representaria uma arriscada manobra com a nave que permitiria escapar dos mais precisos ataques inimigos ou colocar-se em uma posição vantajosa para atacar (mas ao custo de sobrecarregar os sistemas da nave em caso de falha ou expor-se ao fogo inimigo).
Mas deu certo tantas vezes, que acabei incorporando na ficha do personagem pré-definido que acompanha este post.

Naves Estelares

A nave foi um desafio à parte. Inicialmente, pensei em defini-la simplesmente como um aspecto e um conjunto de caixas de estresse para representar seus escudos, além de Consequências, que representariam as condições que afetariam a nave em caso de falha, como Naceles de Dobra Danificadas, Phasers Inoperantes ou ainda Flutuações Gravitacionais Súbitas.

Ficaria à escolha dos jogadores definir a extensão dos danos recebidos em combate ou no contato com os perigos do espaço profundo.

Mas voltando às idéias de STA, pensei um pouco e refleti que a nave poderia ser um personagem. Voltei ao STA e adicionei algumas abordagens à ficha da nave, retiradas diretamente dele:

  • Computadores: representando ao mesmo tempo o sistema operacional da nave e sua vasta biblioteca de dados, o computador de bordo é capaz de atender a comandos de voz, gerar exibição de seu conteúdo através de uma interface e é vital para conectar e comandar os vários setores de uma nave estelar.
  • Comunicações: Controle da comunicação via subespaço, além de uma grande variedade de meios e frequências, permitindo também gerar interferência nas comunicações da área, encriptação e desencriptação de mensagens, localização de fontes de sinais ou escutar as conversas de uma nave para a outra sem ser detectado.
  • Motores: Representa a fonte de energia para toda a nave, além de sua capacidade de se deslocar no espaço usando propulsores subluz ou o motor de dobra. Também mostra o quão bem ela se esquiva de ataques ou navega entre obstáculos, auxiliada pelo escudo defletor.
  • Sensores: Usados para localizar obstáculos ao redor da nave e avaliar suas características, permitindo também analisar a composição de objetos, planetas e outras naves, além de gerar aspectos temporários através de um criar vantagem bem pensado.
  • Armas: Os sistemas táticos a a capacidade ofensiva da nave, como phasers, disruptores e torpedos de fótons. Não foi difícil de entender.
  • Estrutura: É a capacidade física da nave, o quão bem ela se porta sob estresse estrutural, além dos sistemas de suporte de vida, gravidade artificial e controle ambiental. Considere que uma nave com um valor alto de Estrutura e um aspecto bem pensado poderia ser o bastante para ganhar mais uma caixa de Estresse.

Cada uma das abordagens da nave poderia ser usada como uma abordagem por um dos jogadores, no lugar de suas próprias abordagens, quando estivesse usando os recursos da nave. Originalmente, a idéia era que as abordagens da nave servissem como um bônus para os testes do jogadores, mas achei complicado desenvolver esses combos sem pensar um pouco mais e preferi deixá-la como um personagem coletivo do grupo. Ela também recebeu seus próprios aspectos e façanhas, que definiam a eficiência e qualidades de seu tipo e classe de nave estelar, além de seus componentes vitais. Ela também recebeu um modificador de Escala, um Extra que seria usado como para definir a diferença de capacidade entre naves maiores ou mais avançadas.

Definir quais valores seriam mais adequados para cada abordagem exigiu um pouco de pesquisa sobre o tipo de nave que era desejada, e daí distribuir os mesmos valores de abordagens usados para os personagens.

A quantidade de Estresse que era capaz de receber, representando seus escudos, variava junto com a sua classe e escala:

 

classe estresse escala
Auxiliar 1
Escolta ☐ ☐ 2
Cruzador ☐ ☐ ☐ 3
Destróier ☐ ☐ ☐ ☐ 4
Encouraçado ☐ ☐ ☐ ☐ ☐ 5

Estas definições basearam-se (com muita liberdade) nas usadas para embarcações militares da atualidade, e não necessariamente irão se encaixar com precisão às variadas classificações de naves estelares em várias mídias (séries de tv, livros, quadrinhos, videogames) de Star Trek, mas permitem definir uma variação baseada em conceitos mais fáceis de visualizar e equiparar.

Para aproveitar a proximidade da série Star Trek: Discovery, ambientei a aventura cerca de duas semanas antes do evento Batalha das Estrelas Binárias, que marca o início da guerra entre os Klingons e a Federação. Como não havia nenhuma nave canônica equivalente neste período, criei uma variante da Classe Oberth (vista no filme Star Trek II: A Vingança de Khan, de 1982), com o visual de uma nave de ciências desenvolvida (mas jamais usada) pelo designer John Eaves para o MMORPG Star Trek Online. Para homenageá-la, decidi batizar a nave de ciências com o nome do recém-falecido físico Stephen Hawking e usando como nomeclatura da classe, o nome do astrofísico alemão Johannes Kepler — e achei que já era o bastante para a navezinha de ciências, apadrinhada por dois dos maiores cientistas que um dia sonharam com as estrelas.

No fim das contas, foi bem rápido.

Para as miniaturas do personagens, usei o excelente Star Trek Miniature Maker, que permite criar miniaturas de papel de várias espécies e épocas de Star Trek (gratuitamente!).

Na próxima postagem, publicarei uma aventura para acompanhar as fichas. Aguardem!

E espero que curtam esta singela adaptação.

Comentários

4 Comentários

  1. Nois é fã! Nois quer service! Excelente jogo e linda adaptação!

  2. Parabéns, Petras! Depois de Shadowrun, agora este material. E não sou fã de nenhum. Só serei abusado: coloca em PDF! Tentarei fazer isso, para divulgar como divulgo seu Fate Shadowrun (a explicação da organização do textos, das fontes pesquisas, é sensacional!). E no Fate Shadowrun até uni a ficha num arquivo único.

    Prof. Gilson

  3. Leishmaniosesays:

    Olá,

    Adaptação mais que curtida! Super aprovada! E faço coro com o pessoal que acha que a adaptação deve estar disponibilizada em pdf. 😀

    Bonanças.

    Atenciosamente,
    Leishmaniose

Deixe uma resposta para Leishmaniose Cancelar resposta

Por favor, seja educado, nós do Mundos Colidem apreciamos isso. Seu endereço de e-mail não será publicado e os campos necessários serão marcados.