Minhas impressões com o Demon Lord

Olá pessoas!
Aqui é o Tio Lipe e bem-vindos novamente ao Santuário do Mestre. Eu sei, eu sei, faz mais de quinze dias que não posto e as coisas meio que andam acumuladas aqui. De fato, meu ritmo de postagem está quase mensal, mas é por uma boa causa. Estou gastando muito do meu tempo organizando meus sistemas (sim, no plural) e tentando testá-los sempre que possível, principalmente durante os Encontros do Mundos Colidem que organizamos todo domingo aqui na cidade (além de jogar outras coisas).

Mas chega de papo e vamos à postagem de hoje. Para quem não se lembra (ou não viu), em julho deste ano eu fiz uma resenha sobre o Shadow of the Demon Lord. Hoje, com o livro em mãos e após ter jogado e narrado algumas sessões, posso expressar minha opinião preliminar sobre o jogo, além de falar um pouco do seu financiamento e do livro em si.

O Financiamento

Criado por Robert J. Schwalb, famoso por ter trabalhado em várias edições do D&D, o Shadow of the Demon Lord foi financiado com sucesso em novembro de 2016 pela editora Pensamento Coletivo, tendo mais que triplicado a sua meta inicial e sido por um tempo o mais bem-sucedido financiamento coletivo de RPG aqui no país. Seu sucesso foi tal que muitas metas extras alcançadas — como suplementos e aventuras oficiais — ainda estão em processo de tradução (em comunicado recente, a editora afirmou que as primeiras aventuras deverão ser entregues até dezembro deste ano. Esperemos). Este fato é ótimo, pois significa que o sistema terá um bom suporte de material por pelo menos alguns anos, consolidando o produto no nosso mercado.

O livro básico estava previsto para ser entregue em março de 2017, embora sua versão final só tenha sido liberada em PDF a partir de julho e os envios da sua versão impressa, a partir de agosto. Atrasos são comuns em financiamentos por todo o mundo, e se consideramos o prazo dado para a publicação do livro (cerca de quatro meses entre o final do financiamento e o prazo estimado), acredito que a Pensamento Coletivo tenha feito um bom trabalho. Além disso, a editora manteve os financiadores atualizados sempre que possível sobre o projeto, encaminhando e-mails quase que mensais, mesmo após a conclusão dos envios.

O Livro

Com quase 300 páginas de morte, loucura e corrupção, o livro está lindo. Eu havia constatado a qualidade de outras publicações da editora antes do financiamento, mas realmente fiquei admirado com a qualidade do material do Shadow of the Demon Lord. Devido à escolha do formato (folha A4 ao invés de Carta), encaixá-lo na minha prateleira foi um pouco complicado, mas nada que uns ajustes não resolvam. A tradução e revisão estão boas, por mais que eu discorde de algumas escolhas de termos (não gosto de “ação desencadeada”, por exemplo). A diagramação segue bem o padrão da versão original, com seus devidos ajustes. Com relação ao conteúdo, mantenho o que falei na minha resenha quanto à ausência de ilustrações e exemplos adicionais, o que poderia tornar o livro ainda mais chamativo.

A única ressalva que faço sobre o livro é o seu preço de venda (R$ 145,00 na data desta publicação) — infelizmente, não há muito o a ser feito em relação a ele, dado o tipo do material usado e o preço do papel variar com o dólar. O valor pode ser alto, mas é justo para um produto tão bem acabado, mesmo que eu prefira RPGs mais em conta. Ainda assim, seu preço está abaixo da média de outros produtos com a mesma qualidade, valendo o investimento.

Minhas Impressões

Eu tive a oportunidade de jogar uma aventura oficial e narrar outra. A aventura que joguei foi Survival of the Fittest, criada pelo próprio autor do Shadow of the Demon Lord e voltada para personagens iniciantes (Nível 0). Contudo, o narrador preferiu que jogássemos como aprendizes (Nível 1). Como eu pude criar a minha personagem, resolvi tentar fazê-lo de forma completamente aleatória. Primeiro rolei a sua Ancestralidade, conforme listada no livro, e depois todas as suas características derivadas. Em seguida, rolei a sua Trilha de Aprendiz. Como resultado, criei um changeling ladino, tendo sido bastante rápido e divertido. A aventura em si foi desafiante, mesmo sendo para personagens de Nível 0. O narrador transmitiu o clima de tensão ideal, deixando até mesmos nós, jogadores, perdidos e sem saber o que fazer a maior parte do tempo. Ninguém morreu, mas não foi por falta de tentativa (quase fomos comidos vivos!). Fica aqui o obrigado ao meu amigo Joka, da coluna Espaço Mítico, por ter narrado esta aventura.

Já a aventura que eu narrei foi The Apple of Her Eye, criada por Steve Kenson (autor de Icons, Mutantes e Malfeitores e True20) e voltada para personagens aprendizes. Eu criei cinco personagens para a aventura, desta vez escolhendo as suas Ancestralidades e Trilhas, além de criar um pequeno background para cada. O processo de criação das fichas foi rápido e satisfatório, o que considero uma boa vantagem do sistema. Entretanto, senti que o processo é um pouco engessado, limitando bastante o que as personagens podem ser e as diferenciando muito pouco (todo anão guerreiro terá quase sempre as mesmas características, por exemplo). Mas isto não é necessariamente ruim. Como é um jogo letal, tornar o processo de criação das fichas objetivo, mesmo que sacrificando parte da liberdade de escolha, pode ser essencial para garantir a sua agilidade, levando em conta a alta possibilidade de morte das personagens. Além disso, a partir do Nível 3, as personagens começam a se diferenciar mais umas das outras devido às Trilhas de Especialista, mesmo que não exista variação de habilidades dentro de uma Trilha. Esta é uma questão de game designer e acredito que ela caiba bem para um jogo como o Shadow of the Demon Lord.

Sobre a aventura em si… bem, foi um massacre. Dos quatro jogadores para quem narrei, dois tiveram as personagens mortas e as outras duas sobreviveram apenas porque a única mulher do grupo decidiu fazer um acordo pelas suas vidas e só não recebeu corrupção no processo, devido ao seu rosto ter sido “levado” pela Criatura (aqui foi uma liberdade que tomei para tornar o encerramento mais interessante). Foi uma aventura tensa, onde deu para perceber que os jogadores às vezes não sabiam o que fazer, temendo as consequências das suas ações, principalmente após um deles ter sido capturado devido uma atitude temerária.

Ao estudar a aventura, resolvi somar a dificuldade de todos os encontros dela para comparar com a Dificuldade do Dia para aprendizes (página 190 do livro) e percebi que estava no limite sugerido. Entretanto, eu não somei a dificuldade da Criatura, uma vez que sabia que enfrentá-la seria suicídio (ela era poderosa demais para um confronto direto). Como o grupo teve o azar de lidar com todos os encontros da aventura (além de agirem de forma temerária quando não deviam e ainda terem se separado), o resultado não poderia ter sido diferente. A aventura era difícil e cruel, mas não me pareceu injusta ou impossível de ser concluída com vida.

Quanto ao sistema, acho que o mesmo se comportou dentro das minhas expectativas, seja narrando ou jogando. A questão da iniciativa (ações rápidas e lentas) requer um pouco de prática para se acostumar, mas no fim é um método muito inteligente e dinâmico de variar o combate com o qual estamos acostumados. Os slots de magia me pareceram escassos a princípio, mas como tratava de personagens de Nível 1 e dada a brutalidade das magias, mesmo em níveis mais baixos, era de se esperar que se fossem poucos no início. No demais, o sistema se comportou de forma muito similar ao D&D, o que facilitou sua compreensão por quase todos os jogadores (tinha um novato na mesa, que curtiu o jogo mesmo com a sua personagem tendo morrido).

No fim, gostei do sistema, principalmente para fantasias sombrias e jogos com alta letalidade. Eu não o consideraria uma boa substituição ao D&D tradicional (jogar Shadow of the Demon Lord como se estivesse jogando a 5ª edição só trará a morte mais rapidamente), mas certamente ele funciona bem dentro da sua proposta, o que vejo como primordial para qualquer jogo.

E chegamos ao fim da postagem. Espero que tenham gostado e comentem.
Até and Bye…

Financiamento Livro Resenha RPG Santuário do Mestre Shadow of Demon Lord Sistema SotDL

Tio Lipe

Engenheiro civil, otaku, leitor aficionado por fantasias, entusiasta gamer e saudosista. Narro RPG desde quando fui apresentado ao hobby com o Mini GURPS e 3D&T da capa vermelha, e só recentemente passei a jogar mais. De lá para cá, já joguei e testei muita coisa. Devorador de sistemas e senhor das adaptações, quem me conhece sabe que adoro ler novos jogos, testar regras diferentes e adaptar as mídias que curto para o que estou jogando atualmente.

16 Comentários

  1. Thiagosays:

    Sei lã, não gostei nem um pouco da tradução, erros constantes para um livro que demorou 1 ano para ser lançado, como você falou falta de imagens comparado ao original, erros na diagramação e tradução que chegam a deixar o livro feito em alguns pontos. Devia ter anotado os erros enquanto lia, por que eram muitos, parece que não contrataram um revisor profissional e isto é um problema serio, parece livro lançado pela Devir. Também tem os atrasos dos dados e cartas que até o momento não foi lançado e o escudo do mestre vem com um erro de imagem bem estrondoso.

    • Olá!
      De fato, há atrasos nos extras e a maioria nem tem previsão de lançamento, mas isso é uma constante em todos os financiamentos de RPG do país e em muitos lá fora (acredite).

      Quanto a revisão, não vi tantos erros assim, mas podem ter me passado despercebidos. Minha maior crítica fica para a escolha de termos mesmo na tradução.

      No mais, desculpa a demora para responder.
      Até and Bye…

  2. Essa aventura do The Apple of Her Eye me pareceu maravilhosa. Espero que a gente possa começar uma campanha o quanto antes!

    • Olá!
      A aventura é ótima e estupidamente letal se os jogadores fizerem as escolhas erradas, e ainda assim divertida. Quanto a campanha, tomara que ano que vem dê certo. Você podia narrar, se um certo “viciado” em Open Legend deixar. XD

      Até and Bye…

  3. Chavessdo8says:

    Boa tarde! Sei que o POST e sobre o Demon Lord, mas como nao encontrei material referente ao Mutant: ano zero, gostaria de saber se, em alguma hipótese, o Tio fará um Review sobre o jogo?

    Não há muito suplemento sobre ele pela editoda, mas se o Tio já estiver com o que eu perguntei na ponta da lingua e puder fazer um review… Caso já seja conhecedor do aistema, poderia me dizer como “saber a hora” de dizer que os mitanten encontraram o Éden? E se teria como os mutantes passarem de nível? Não achei nada referente aos reviews que li até hoje…

    Atenciosamente

  4. Olá Chavessdo8!
    Infelizmente nunca li ou joguei o Mutant. Contudo, meu amigo Joka da coluna Espaço Mítico não apenas conhece e tem o livro, como já narrou uma campanha. Vou chamar ele aqui pra lhe ajudar.

    Até and Bye…

  5. Jokasays:

    Olá Chavessdo8! Como tio disse aí, eu já narrei e possuo o mutante ano zero. Qt a hora “certa” depende só de vc como narrador escolher o momento que eles vão descobrir a terrível verdade sobre o Éden e as origens deles. Não existe momento certo. Vc pode basear toda sua campanha nesse mistério ou pode esquecer ele e focar apenas no desenvolvimento da arca e a reconstrução do mundo.

    Mutante ano zero não usa “nível”. Eles ganham xp conforme aquela tabela de progressão que tem no livro que vai depender de estarem agindo contra seus arquinimigos, ajudando aliados, lutando para finalizar seus objetivos pessoas e etc.

    Seria isso q vc quer saber?

  6. Chavessdo8says:

    Oi Joka, boa noite!

    Sim respondeu bem e agradeço muito por isso, me ajudou bastante! Mas a minha maior preocupação é que, depois de os PJs encontrarem a arca e tudo o que envolve ela, o jogo perca o sentido em se tratando de uma nova aventura, que o Mutant não tenha uma rejogabilidade em se tratando de um propósito final, um pano de fundo e que em uma proxipr aventura os PJs percam a vontade de jogar por não terem o ontereint em ficar só cuidando e evoluindo a arca, sem rumo.

    E desde já quero agradecer o Tio, que se propôs em me ajudar. Quanta dedicação em prol do RPG e de carinho com o próximo. Tio e Joka, vocês são demais!

    Atenciosamente,

  7. jokamcsays:

    Qt ao medo de não ter rejogabilidade, fique de boas. Como eu disse, o cenário tem essa trama principal, mas você segue ela se quiser. O Éden é melhor usado qd vc já quer terminar a campanha e quer mostrar mais do cenário de jogo. A minha campanha mais longa do Mutante Ano Zero foi só a galera tentando fazer com que a Arca desse certo. Era muita treta entre as “gangues de chefões” e a chegada de forasteiros. Teve até guerra. Foi bem bacana. Lembrando que a editora original do Mutante já lançou vários outros cenários que expandem a trama principal. Por exemplo:
    Dead Blue Sea – Os jogadores tem aventuras em alto mar.
    Genlab Alpha – Você joga com os mutantes de forma animal q estão presos em um super laboratorio controlado e gerenciado por uma Inteligência Artificial super tensa. E ainda tem toda uma campanha nova que pode fazer ponte com a do livro principal.
    Mechatron – Vc joga com robos que foram abandonados pelos humanos e precisam decidir entre sua lealdade aos seus criadores ou tomar as rédeas das suas proprias vidas. Também acompanha regras para juntar a galera do livro principal.

    Tem mais alguns que eu n recordo o nome e q são bem bacanas. infelizmente todos em inglês ou sueco (se não me engano é de lá a editora principal) e não tenho nenhuma previsão se a Pensamento Coletivo vai trazer. =/

  8. jokamcsays:

    Se você for narrar pela primeira vez, o conselho que eu dou é: Use e abuse do gerador de aventuras aleatórias do livro. Aquele que vc rola numa tabela para saber se alguma situação nova acontece. E vá jogando muitas e muitas situações para eles cuidarem. Não dê fôlego. Lembre-se que Mutante é um jogo de sobrevivencia. Eles precisam lutar muito para ter algo simples como água.

  9. Olá Chavessdo8!
    Que isso man, de boas. Estamos a disposição sempre que pudermos ajudar. 🙂

    Até and Bye…

  10. ChavesDo8says:

    Olá mais uma vez, Joka!

    Gostaria de pedir, se não for dar muito trabalho, que você fizesse um review e suas impressões sobre o Mutant: Ano Zero.

    Dizer o que achou de uma forma geral, levantando pontos fortes/fracos do sistema, dando dicas (sem spoiler) de como se adaptar ao sistema, essas cosias.

    Seria muito interessante para a comunidade e jogadores/mestres que desejam investir no jogo.

    Já li alguns reviews em pt-br, mas ainda não li sobre a opinião de quem é narrador e/ou jogador.

    Se não for pedir demais…

    Atenciosamente,

    ChavesDo8.

  11. Jokasays:

    Olá Chaves. Vou tentar preparar algo até sexta, que é o dia da minha postagem. =)

  12. Chavessays:

    Boa noite, Tio Lipe!

    Mais uma vez volto eu em seu POST para tentar contribuir, desta vez, com o próprio SotDL, de alguma forma. Não li o livro, então desde já perdoe-me por isso. Mas a minha é pergunta é simples e faz todo o sentido, tendo em vista que vim do D&D, o sistema dos sistemas.

    Vamos direto ao ponto. Farei uma citação do seu texto e logo em seguida a minha pergunta: “Além disso, a partir do Nível 3, as personagens começam a se diferenciar mais umas das outras devido às Trilhas de Especialista, mesmo que não exista variação de habilidades dentro de uma Trilha. Esta é uma questão de game designer e acredito que ela caiba bem para um jogo como o Shadow of the Demon Lord.”

    Minha pergunta é: as personagens são fáceis de criar e me parecem não ter aquele background das ancertralidades, no sentido de por exemplo: um Orc poder usar furtividade e tentar roubar as chaves penduradas no cinto de um guarda. Ou um Goblin querer derrubar uma porta com pontapés. Me desculpe a comparação e até a explicação meio esdrúxula, mas me parece que o jogo por não ter diferenças consideráveis entre as ancestralidades, no início da criação, pode pecar e ter uma certa pobreza em riqueza desses detalhes…

    Volto a repetir: não li o livro e venho humildemente colocar as minhas dúvidas, só isso… Como narrador (que já fui um dia), só penso em contribuir e tirar as dúvidas dos colegas que com certeza, devem ter as mesmas dúvidas ou até outras que eu mesmo nem pensei em questionar.

    Com a atenção e o carinho de todos, agradeço a compreensão…

    Atenciosamente,

    Chaves

  13. Olá @CHAVES!
    Então, eu aconselho muito você ler o livro, mas sobre a sua pergunta, as ancestralidades possuem tabelas que dão sugestões de como criar backgrounds para a sua personagem, o que pode até modificar algumas de suas características (como a personagem começar com corrupção, por exemplo). Além disso, por mais que o sistema não diga explicitamente que orcs são mais fortes que goblins, seguindo o seu exemplo, cada ancestralidade possui características únicas que modificam até mesmo os valores inicias em Atributos (e uma diferença de 1 ponto entre Atributos já é muito significativa no SoDL, diferentemente do D&D padrão).

    Espero que tenha ficado claro.
    Até and Bye…

  14. Chavessdo8says:

    Olá, Tio!

    Mais uma vez, muito obrigado pela ajuda! Vou comprar o livro, acredito já ter o suficiente pra começar.

    Ouço por aí que o Demon Lord é pesado e pra quem tem estômago, pois o cenário e realmente perturbador ao retratar a maldade pura.

    Agora só falta aguardar o Joka com o Review dele sobre o Mutant, hehehehehehee.

    Abraços analógicos!

    ChavesDo8

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