ひきこもり (Hikikomori) 

Hikikomori é um “RPG solo” escrito em 2006 por Ewen Cluney para competir em um desafio chamado RPG de 24 horas. Vamos conhecer um pouco desse jogo para se jogar sozinho e introduzir o tema que dá base para a ficção, sua inspiração na literatura, no mangá e no anime.

A proposta original de Hikikomori é que o jogador assuma a identidade de uma pessoa reclusa e isolada em seu quarto, que na maioria das vezes busca se relacionar mais com os seus hobbies do que com outras pessoas cara a cara. O jogo é como uma “mistura de aventura solo (como nos livros-jogo de Aventuras Fantásticas) e exercício de escrita, só que com um dado de dez lados e insanidade”, como descreve o autor. É um jogo de mecânica muito simples, mas que assim como Sweet Agatha, pode produzir narrativas inusitadas.

 

 

O Problema

O termo hikikomori diz respeito a um fenômeno que se tornou um problema, especialmente no Japão, onde adolescentes e jovens adultos buscam o isolamento social, se tornando reclusos. A percepção desse problema, que tem se proliferado para as grandes cidades da Ásia e além, ganhou cada vez mais os contornos de uma crise social e de saúde. A ocorrência em homens parece ser mais frequente, porém, é também visível o caso de cada vez mais mulheres nessa condição. Segundo o psiquiatra japonês Tamaki Saito, que começou a observar o fenômeno nos anos de 1990, os homens ocupam de 70% a 80% dos casos enquadrados como hikikomori, Porém, em uma pesquisa de opinião realizada pela NHK (rede de transmissão de rádio e TV japonesa), a quantidade de homens diminuiu para 53%.

A delimitação desse problema está enraizada no contexto da vida nas grandes cidades e também nas expectativas dos jovens, da família e da sociedade de uma maneira geral. Para Andy Furlong, da Universidade de Glasgow, é importante considerar uma diferença de percepção desse fenômeno entre homens e mulheres. A ênfase da cultura japonesa em perceber como algo normal a mulher ocupar o interior da casa e o homem de sair, torna os casos de homens na condição de hikikomori muito mais visíveis. Apesar do número de casos ter crescido no Japão, com os dados do governo japonês chegando a contabilizar pelo menos setecentas mil pessoas atingidas, essa estimativa pode ser ainda maior, dada a dificuldade em identificar e contabilizar os casos de maneira eficiente. Uma tendência recente é que a faixa etária dos hikikomori parece ter aumentado desde a década de 90, passando de 21 para 32 anos de idade, como apresenta essa matéria da BBC.

 

 

Uma das principais inspirações para Ewen escrever o jogo Hikikomori veio de um livro chamado NHK ni Youkoso (Bem-vindo à NHK), publicado em 2002. O romance foi adaptado para uma série de mangá em 2004, que deu origem ao anime de mesmo nome, dois anos depois. Bem-vindo à NHK mostra de maneira bastante tragicômica a vida de Tatsuhiro Sato, um japonês com vinte e poucos anos que abandonou a universidade e está desempregado há quatro anos. Em seu isolamento, Sato acredita que está sendo perseguido pela NHK — não a empresa de transmissão de rádio e TV japonesa (Nippon Hōsō Kyōkai), mas sim pela “Nihon Hikikomori Kyōkai”, uma organização obscura que conspira para transformar pessoas em hikikomori.

Descobri em tempo que a Panini publicou o mangá Bem-vindo à NHK em português, no ano de 2011, mas não consegui mais pistas sobre o mangá publicado no Brasil.

 

 

Com o aumento desse problema no Japão, um conjunto de iniciativas e instituições tem se empenhado para mitigar esse problema, através de grupos de apoio com pais e psicólogos especializados — inclusive com suporte online para os jovens que estão isolados — e programas de inclusão no mercado de trabalho. Porém, apesar das tentativas em resolver essa questão, o problema do hikikomori continua complexo. Para Shinako Tsuchiya, membro do Parlamento do Japão em 2006, que chegou dirigir um grupo de estudos sobre a questão dos hikikomori, o governo ainda não entende o quão grave é esse problema e a atenção pública e os recursos destinados para a questão ainda são poucos.

O Jogo

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a orientação de Ewen na criação do personagem, dizendo que apesar de ser um fenômeno definido por uma palavra japonesa, não necessariamente o personagem precisa ser japonês — e nem homem. Ele aponta que é um fenômeno que pode acontecer em qualquer cidade pós-industrial. Em seguida, afasta gentilmente o jogador das análises mais sérias, já comentadas sobre o problema social e de saúde representada pelos hikikomori e o conduz para a diversão da ficção e exercício de imaginação e sugere:

 

seja “um alienígena andrógeno com poderes psíquicos se é isso que você realmente quer”. O jogador fica livre para definir os detalhes biográficos do personagem o tanto quanto quiser.

 

Depois de se delinear o personagem, é hora de definir os atributos. O principal deles se chama Esperança, que começa com 3 dados de 10 lados (3d10). Depois são escolhidas as características, coisas que afetam a vida do personagem, elementos que compõem o cotidiano, como problema de saúde e amigo imaginário, amigo real ou um hobby pelo qual o personagem seja obcecado. O personagem inicia com 3 características, uma escolhida deliberadamente e as outras duas com a rolagem de um d10.

 

 

Os acontecimentos que se dão ao longo da semana do personagem, ocorrem dia após dia e são definidos com uma rolagem para as características dominantes do dia. Com uma rolagem de 3d10 para cada uma, as características devem ser organizadas do valor maior para o menor. As três primeiras características se apresentarão como uma espécie de desafios para o dia, e devem ser resolvidas usando a tabela de Ações Genéricas ou Ações Específicas para cada uma.

Ao final do dia do hikikomori, o resultado das ações devem ser registradas na forma de um diário, cabendo ao jogador elaborar com mais ou menos detalhe os resultados da tabela e compor a sua narrativa do dia.

Ao longo da semana, podem surgir novas características: vícios, amigos imaginários, novos hobbies e também pensamentos suicidas. A Esperança também pode ser recobrada na medida em que o personagem consegue superar as suas dificuldades do isolamento e lidar positivamente com seus problemas e até mesmo conseguir fazer novos amigos que podem ajudar. No fim de sete dias, após diversos acontecimentos e reviravoltas, a quantidade de Esperança final vai definir a conclusão do jogo.

 

Apenas mais um passo… Eu estou tão perto de resolver todos esses mistérios. TV, kotatsu, computador, por favor me emprestem sua força!

— Welcome to the NHK

Eu não terminei uma semana completa do jogo com o meu personagem, na verdade, fiquei tão interessado pelo tema que além de pesquisar um pouco sobre esse fenômeno, comecei a dar uma olhada em episódios do “Bem-vindo à NHK”, e também no romance Welcome to the NHK.

No nosso próximo encontro aqui no Mecanismo Obscuro, comentarei como foi acompanhar o meu personagem hikikomori durante uma semana e apontarei mais alguns detalhes sobre esse jogo. Gostaria de te convidar mais uma vez a baixar o Hikikomori gratuitamente aqui, fazer um personagem e jogar um pouco. Como é um jogo novo para mim, gostaria de saber como você vai se sair na sua partida. No próximo encontro escreverei um resumo de como fui. Até a próxima!

Comentários
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Gabriel Lopes

Entusiasta da história das ciências e dos jogos de ficção. Interessado em cenários de ficção especulativa. Hábito perigoso: confiar demasiadamente na teoria. Conheceu a maior parte dos seus amigos na mesa de jogo, reconhece que a culpa é da Oficina da Aventura (quando pressionado). Frase predileta: "o passado é imprevisível".

4 Comentários

  1. Thiago Augustosays:

    Sensacional

    • Gabriel Lopessays:

      Valeu Thiago. Em breve falaremos um pouco mais desse jogo. A segunda parte sai em 15 dias.

  2. Olá!
    Eu diria que esta é uma postagem “multidisciplinar”, indo muito além do RPG e apresentando um problema social crescente e complexo. Muito bom mesmo. Aguardando seus comentários sobre o jogo em si.

    Até and Bye…

    • Gabriel Lopessays:

      Valeu Tio Lipe, gostei do multidisciplinar aí! Tinha perdido esse comentário de vista. Agora a trilogia de posts sobre o Hikikomori está completa.

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