Guia para narradores iniciantes

A Espaço Mítico desta semana vem trazendo para vocês leitores, uma nova sequência de postagens sobre narração do nosso jogo favorito, o RPG. Mas agora voltado principalmente para aqueles narradores de primeira viagem ou mesmo para os jogadores que sempre desejaram entrar no universo da narração mas não sabiam exatamente o que fazer e/ou como começar. Este guia nasceu de uma série elaborada pela equipe do Mundos Colidem para ajudar aos novatos no RPG, seja explicando regras de sistemas como Savage Worlds ou FAE/FATE, seja para introduzi-lo ao universo do Roleplay. E para o início do guia, vamos abordar dois temas importantes na narração: O papel do Narrador e como fazer a famosa Preparação de suas sessões de jogo.

O Árbitro ou o papel do Narrador

Um das figuras principais na grande maioria dos jogos de interpretação de papéis é o popularmente conhecido “narrador”. Esse “cargo” tem um nome diferenciado, dependendo do sistema de jogo utilizado. No mais jogado dos RPGs, o D&D, ele é chamado de Mestre da Masmorra (do inglês Dungeon Master ou DM). Em outros RPGs, eles também são nomeados de Mestre do Jogo (Game Master ou GM) ou Diretor, Guardião, Cronista, etc. 

A função básica do narrador é servir de árbitro das regras utilizadas pelo grupo, bem como controlar todos os personagens não jogadores (do original, NPC: non player character), descrever o ambiente e contar uma história envolvente e divertida para entreter seu grupo de jogo. Com certeza, é muita responsabilidade para apenas um jogo, não?  Mas não se enganem, é uma atividade prazerosa e muito divertida. E, por incrível que pareça,  bem menos complicada do que parece à primeira vista. Principalmente se o narrador tomar algumas atitudes na preparação do jogo.

Uma dessas atitudes é o estudo das regras do jogo. Apesar de não ser necessário que você se torne P.H.D no sistema escolhido para narrar, é importante ter ao menos as principais regras em mente, como por exemplo, os testes mais usados, as regras de combate e assim por diante. Contudo, não se estresse em querer ter todas as regras decoradas. Crie um hábito de anotar as páginas das principais regras e use e abuse do Índice que praticamente quase todos os livros de RPG possuem no final. Nós da Espaço Mítico costumamos utilizar marcadores de páginas do tipo Post It, que não sujam e nem machucam o seu livro, para encontrar rapidamente aquela informação que você esqueceu.

Muitas vezes, você se deparará com situações que as regras não abordam de forma clara ou que simplesmente não possuem algo equivalente. Nesses momentos, a melhor maneira de resolver é usar a razão e conversar com seus jogadores para obterem a melhor solução para a situação. Não deixe que as regras se imponham sobre a diversão. Tenha consciência de que o jogo é seu. Você pode modificar as regras (desde que todos os participantes concordem com isso) tanto quanto for necessário, no intuito de fazer a sessão de jogo fluir da melhor maneira possível.

Saiba que você vai errar. Principalmente se for sua primeira vez. Mas não se desespere. Anote todas as dificuldades que você percebeu no decorrer do jogo, peça a opinião de seus amigos e em seguida reavalie suas ações. Veja vídeos com outros narradores e preste atenção em coisas que eles fazem para tornar a sessão interessante. Jogue, jogue muito, principalmente com vários narradores diferentes. Isto ajuda a ter uma maior perspectiva do que você deve ou não fazer enquanto está narrado. Nós acreditamos que nunca é demais voltar a lembrar que a intenção fundamental de jogar/narrar um RPG é a diversão. Então faça apenas o que possa gerar mais diversão para você e seu grupo.

 

the dungeon master by moulinbleu-d61u428

 

Preparação

Esta é a parte que muitos narradores mundo afora são apaixonados por fazer,  a preparação do jogo. Existem centenas de formas diferentes de fazê-lo e — sendo bastante sincero com vocês — também não há uma forma correta ou melhor. Porém,  para quem vai começar a narrar, nós podemos sugerir algumas orientações que podem servir para darem o ponta pé inicial na atividade.

Primeiro, pense em um tipo de história que você gostaria de contar para a sessão que irá narrar. Se tiver dificuldade para criar uma ideia, veja algumas séries que curta, reveja alguns livros (também vale ler novos) ou filmes e anote situações ou tramas interessantes que tenham ocorrido neles. Em seguida, escolha alguma dessas anotações para começar a preparar. Vamos dar um exemplo de como fazer isso: Recentemente assistimos um filme chamado Spectrals, do Netflix. A trama do filme, em miúdos e com um leve soltar de spoilers é que está havendo uma guerra civil em uma cidade e centenas de milhares de civis inocentes que foram pegos no fogo cruzado entre as facções estão retornando como espectros e matando pessoas em todos os lados do conflito.

Com a história acima, já temos por onde começar uma sessão, pois é bastante visível o Problema Principal. Devido à natureza colaborativa do RPG, desaconselhamos fortemente a planejar tudo o que poderia ou viria à acontecer na sessão. Explicaremos melhor o porque mais a frente. Ao invés disso, deixe espaço para que os jogadores sejam criativos e possam tentar resolver o Problema Principal de forma livre. Claro que isto não significa que sua sessão não possa ter algum tipo de estrutura (a não ser que o jogo precise ou exija isso, como Blood & Honor), por isso você precisará ter em mente as condições para resolver o problema.

Continuemos com a trama de exemplo. Se estivéssemos narrando um jogo medieval de fantasia, aonde existam magos e dragões, poderíamos pegar a trama do filme e fazer uma leve adaptação: Um dos lados do conflito poderia querer criar uma maneira de aumentar sua margem de vantagem utilizando magia necromântica. Assim, o necromante antagonista criou um laboratório secreto em algum lugar na zona de guerra e está transformando os civis em mortos vivos. Mas a experiência saiu do controle e agora é necessário desligar ou destruir a máquina mágica que cria estes monstros. Logo, as condições para resolver o problema ficariam algo como:

  1. Localizar o laboratório.
  2. Destruir a Máquina Necromântica.

Percebam que colocamos as condições mais obvias, mas é possível acrescentar mais condições para tornar o final mais complexo. Por exemplo:

  1. Descobrir quem criou a Máquina.
  2. Expor o mago necromante.
  3. Encerrar a guerra civil.

Assim, tudo o que bastaria para o nosso jogo começar seria um nome para o vilão, um motivo para os jogadores resolverem o problema e uma pequena lista com personagens não jogadores que poderiam (ou não) surgir na trama. Todas essas informações, anotadas em um bloco de notas ou em um papel de fácil acesso para servir de lembrete e referência, ajuda — e muito — o trabalho quando o jogo começa, quando tudo passa a sair do controle do narrador.

Talvez alguns dos leitores questionem o fato de não aprofundar mais na preparação além dessas poucas informações. Entretanto, devemos lembra-los que o RPG é um jogo de criar histórias colaborativas com todos os participantes. Dar espaço para os jogadores desenvolverem seu próprio caminho permite que você não apenas evite ficar frustrado quando eles não seguirem ou utilizarem tudo o que você passou horas planejando, como também facilita para você improvisar mais enquanto joga. No exemplo citado, os jogadores poderiam ter a ideia de roubarem a máquina para eles — essa ação provavelmente daria uma guinada repentina no planejado e acabaríamos ficando sem ação ou até mesmo resolvendo forçar os personagens a não exercerem sua contribuição à história, fazendo o que queremos. Não ter tudo escrito em pedra dá flexibilidade à sessão e faz com que todos se divirtam mais, por dar a sensação de plena participação, afinal, as ações deles fizeram diferença na história contada.

Aqui um pequeno resumo do que você pode fazer na preparação:

  • Pense em um Problema Principal.
  • Crie um ou mais Antagonistas.
  • Elabore um motivo para os jogadores se envolverem com o problema.
  • Faça uma lista de Personagens Não Jogadores que podem (ou não) aparecer. Um nome e uma função, classe ou característica marcante dele é o suficiente para pôr ao lado do nome.
  • E principalmente, JOGUE e divirta-se!!!

Em nossas próximas postagens, daremos continuidade a este guia. Até lá, gostaríamos de ouvir sugestões ou opiniões para que possamos fazer crescer ainda mais o material e difundir o RPG. Abraços!

Comentários

Joka

Professor, Geógrafo e agora ativista do RPG nas escolas. Conheci o hobby jogando Toon em uma tarde divertida de 94 com um dos anciões da Mundos Colidem. Desde então, sigo atrás do escudo preenchendo meu currículo com D&D, OSR, Indies, Fate e trocentos outros.

4 Comentários

  1. Olá!
    Amigo, parabéns. Que postagem massa. Adore mesmo. Acho que agora você poderia começar a explicar o processo em si de narrar, dar dicas de como criar cenas e como criar ganchos.

    Até and Bye…

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