Guia para narradores iniciantes III

Saudações leitores, esta nova parte do guia é parte importante de uma série de outras postagens de nossos companheiros de blog voltados para iniciantes no hobby, como RPG para iniciantesComeçando em Savage WorldsPreparando a Sessão Zero;  A aventura vai começar; Tipos de aventurasEvite frustrações: tipos de aventuras e finalmente Sessão Um. Como podem perceber, diversas áreas interessantes da narração, produção de aventuras bem como iniciações a alguns RPGs não faltam para quem está ávido em aprofundar leituras sobre tais temas. E é com prazer que apresentamos o fim da nossa série “Guia para narradores iniciantes“, que teve uma segunda parte também no Espaço Mítico

E como prometido, este capítulo trará dois tópicos importantes para discussão aos narradores novatos e até mesmo mais experientes, que irá exigir um pouco de observação da dinâmica de seu grupo de jogo bem como analisar as suas preferências particulares do sistema que joga. Assim, os tópicos são: A escolha de um sistema e Como dar aos jogadores o que eles querem.

Como Dar aos Jogadores o que Eles Querem

Pode parecer um pouco obvio o que falaremos a seguir, mas isto não torna a questão menos importante. Cada grupo possui uma dinâmica própria, com objetivos e necessidades diferentes. Descobrir quais são elas ajuda muito o trabalho do narrador, que pode utilizar estas informações para desenvolver um estilo de jogo que lhe agrade e a seus jogadores.

Todos vêm até a mesa jogar por razões bastante diversas. Ao aceitar que as preferências e desejos de cada jogador devem ter peso igual exige primeiro que nós nos comprometamos com nossos próprios gostos pessoais. Pois, muitos de nós começamos a ser mestres porque queremos ter um controle maior sobre a experiência do jogo. Queremos expressar nossa criatividade e colocar em prática todas aquelas ideias incríveis que pensamos durante a semana para os nossos jogadores. Mas nenhum conceito incrível e inovador de jogo tem algum significado se você não consegue manter a animação dos jogadores.

Deste comprometimento com os gostos dos jogadores e narrador que Glenn Blacow, em 1980, publicou um artigo sobre Aspectos de jogos de aventura (no original, Aspects of adventure gaming) em que o autor postula que existem quatro tipos de jogadores: Os Power gaming; Role-Playing; Wargaming e o Story Telling. Robin Laws em seu livro Robin Laws of Good Game Mastering desenvolve e expande os tipos de jogadores, que inclusive já foi abordado em artigo anterior aqui na Espaço Mítico, para os chamados Power Gamer; Chuta-Bundas; Tático; Especialista; Ator Metódico; Contador de Histórias e o Jogador Casual. E serão estes últimos que iremos usar em nossa análise do grupo.

  • O Power Gamer: Deseja que seu personagem seja grande, forte, rico ou poderoso. Qualquer que seja a maneira de alcançar o sucesso definido pelo sistema de regras, este jogador tentará alcança-la, sempre querendo mais.
  • O Chuta-Bundas: Quer aliviar a tensão com um pouco da boa e velha pancadaria. Ele pega um personagem simples e pronto pra o combate (mesmo que não necessariamente seja tão forte como o do power gamer) e quer terminar a sessão tendo provado a superioridade dele sobre seus oponentes. Ele quer bater em coisas! Simples assim.
  • O Tático: Ele gosta de se imaginar como um comandante militar e geralmente escolhe poderes ou habilidades que irão afetar o campo de batalha. Em geral, é aquele jogador que gosta de ter que lidar com desafios táticos e lógicos.
  •  O Especialista: É o famoso jogador de uma classe só. Sempre joga de ladino, ninja, assassino, diplomata ou o que quer que seja em todos os seus jogos. Ele quer que seu personagem brilhe quando enfrentar a situação em que se especializou.
  • O Ator Metódico: Curte jogar com um personagem radicalmente diferente dele mesmo, no qual possa atuar e entrar totalmente na sua psique. Ele baseia todas as suas decisões em jogo sobre o que seu personagem faria ou não durante a partida. Muitas vezes ele obstrui a ação de outros jogadores por considerar completamente incompatível com o seu personagem.
  • O Contador de histórias: Assim como o ator metódico, ele é inclinado mais para o “roleplay” do que para o “game”. Ele deseja participar da narrativa e almeja participar de uma história que ele facilmente identificaria como pertencente a um filme ou livro que leu. Está sempre ativo quando consegue mover a história pra frente, mas pode ficar entediado em longas sessões de planejamento e discussão. O que um contador deseja é ver a história se desenvolver.
  • O Jogador Casual: É geralmente esquecido nas discussões sobre tipos de jogadores, e praticamente todo grupo tem um. Jogadores casuais mantém pouquíssima atenção sobre si nos jogos e se sentem desconfortáveis quando se tornam o centro, mesmo em grupos muito pequenos. Ele apenas quer estar com o grupo e joga porque acontece de ser a atividade em que todos estão realizando. E por incrível que pareça, são peças chaves em qualquer grupo por atuar como intermediários entre as diversas personalidades dos jogadores.

A primeira coisa que precisa ser dita sobre os tipos de jogadores é que nenhum deles está jogando errado! Talvez vocês já tenham começado a identificar alguns de seus companheiros de mesa nesses tipos, provavelmente até já tenham se enquadrado em um ou mais de um desses tipos. Isso acontece porque muitas vezes, nossos desejos mudam entre os jogos. Em alguns, você só quer trocar tapas com o próximo monstro que o narrador lançar contra vocês e isso já te deixa mais que satisfeito. Em outros, você quer ser desafiado taticamente nos campos de batalha do jogo.

Entender e reconhecer as categorias de jogadores pode tornar a vida do narrador mais fácil, principalmente porque por meio delas, é possível desenvolver as aventuras de seus jogos pensando em cada um deles. Por exemplo: seu grupo tem um power gamer, um tático e um especialista. O power gamer quer ter algum momento em que ele possa demonstrar a força que ele obteve durante o jogo e uma chance de obter mais poder, nem que isso seja apenas uma promessa a longo prazo, como encontrar um poderoso item encantado. Enquanto o tático deseja um combate envolvente e desafiador, em que suas habilidades como líder sejam testadas. Já o especialista costuma ser mais simples, se o de sua mesa for o típico ninja/ladino/assassino, tudo que é necessário é a partida possuir momentos em que as habilidades super especializadas dele possam ser usadas e que o mesmo possua uma importância na história através delas.

Um bom exercício para começar a preparar sua aventura por meio dos tipos de jogadores, é você prestar atenção nos desejos e anseios de seus amigos enquanto estão jogando. Acredite, na maior parte do tempo eles vão deixar isso bastante claro uns pros outros, basta escutá-los. Você ainda pode sentar e conversar com eles sobre os objetivos que eles desejam alcançar durante o jogo, o que vai te fazer ouvir coisas como “Quero acabar com fulaninho, que sempre nos pega de surpresa!”, “Ouvi falar de uma espada escondida dentro de um templo e queria muito encontrá-la” e assim por diante.

Antes de passarmos para nosso próximo tema, é necessário que nós chamemos atenção para um tipo de jogador e suas necessidades: o Jogador Casual. Muitas vezes o casual é tímido, não tem grandes objetivos ou simplesmente não liga de seguir os outros jogadores e ajudá-los em suas metas. Se você tentar dar protagonismo para ele, nem sempre será algo bom. Ele não saberá o que fazer e corre até o risco de se afastar da mesa. O casual, às vezes, gosta de ser “esquecido” durante o jogo. Ele está ali pelos amigos e se todos se divertem, será para ele também. Tente não se preocupar demais com o jeito “apagado” e se quiser tentar mudar isso, sempre é possível conversar com ele. Se ele não demonstrar nenhum desejo de mudança, deixe-o quieto até um momento oportuno e tente de novo. Acaso ainda assim não houver mudança, apenas aceite o fato de que ele gosta de jogar assim, e que não há nada de errado nisso.

 

“O que vamos jogar hoje? Hummm…”

A Escolha de um Sistema

Este tema já foi abordado aqui em algumas ocasiões anteriores no Mundos Colidem, tanto com o nosso artigo sobre o livro de Robin Laws no Espaço Mítico, como também, de maneira mais aprofundada, no Enclave do Arquimago com a postagem O sistema importa. O nosso foco, aqui no guia, é orientar a escolha de um sistema de forma consciente para iniciantes.

Isso pode parecer uma tarefa um tanto quanto complicada, tendo como base o fato de que iniciantes dificilmente têm ou conhecem mais de um sistema de RPG diferente. Mas, a ideia da escolha de um sistema deve ser feita a medida em que o narrador amadurece (e passa a ter preferências pessoais) que vão facilitar este processo.

Não há “O” melhor sistema de regras, mas aquele que melhor serve às necessidades de seu grupo em particular.

— Robin Laws, Robin Laws of Good Game Mastering.

A primeira etapa para a escolha, deve passar pelas preferências do grupo. Reveja os tipos de jogadores de sua mesa (e seu gosto) e verifique se o sistema que você está considerando terá condições de abarcar as necessidades de todos. Por exemplo: O power gamer gosta de jogos com características gamistas (jogos com muitas disputas) como Shadowrun ou Pathfinder. Já o Ator prefere aqueles mais narrativistas, onde a forma como é contada a história tem peso maior como Fate ou Blood & Honor. Lembre-se que a sua necessidade como narrador também conta aqui. Não adianta pegar um sistema que seus jogadores vão adorar, enquanto que você não o suporta. Aqui, o equilíbrio na escolha importa.

É importante lembrar, também, que o Tema e o Tom influenciam na escolha de um sistema. Nem todo RPG consegue emular todo estilo de jogo. Alguns são melhores que outros para Horror, Fantasia Épica, Fantasia Urbana e assim por diante. Mesmo que algumas pessoas digam que é possível emular qualquer jogo no seu sistema favorito, bastando alguns ajustes, não são todos que tem tempo ou mesmo conhecimento e talento para fazer estas mudanças. Já testemunhamos verdadeiras tragédias em modificações de sistemas que podem levar a uma total derrocada de sua sessão.

É claro que isso não quer dizer que você não possa fazer modificações em seu jogo favorito, ou emule cenários do qual ele não foi feito para fazer. Adaptações estão aí para provar que é possível, como muito bem abordado nestas postagens do Mundos Colidem: Como Treinar seu sistema I, II e III e o Adaptando para RPG. Mesmo assim, é necessário um certo cuidado em buscar um RPG que consiga aplicar o Tom e o Tema das adaptações preteridas.

E aqui terminamos nossa série do Guia para Narradores Iniciantes, espero que tenham gostado ou que ao menos este material os ajude nessa tão divertida jornada de narrar. Deixem suas dúvidas, comentários ou pedidos logo abaixo e bom jogo a todos!

Comentários

2 Comentários

  1. Olá!
    Perfeito meu amigo. Fechou com chave de ouro a série. Este texto em si ficou ótimo, uma grande aula.

    Até and Bye…

    • Jokasays:

      Vlw Tio! Em breve eu vou retornar com os pontos que deixei passar nas últimas postagens para novas discussões sobre narração. =D

Deixe um comentário

Por favor, seja educado, nós do Mundos Colidem apreciamos isso. Seu endereço de e-mail não será publicado e os campos necessários serão marcados.