Folclore brasileiro e Cthulhu: Nova Amsterdã 1646

O nosso país, por possuir uma imensidão praticamente continental e uma variedade de povos, acaba por ter uma riqueza surpreendente em seu folclore e regionalismos. Em conjunto com meu amigo Raphael Lima, da coluna Nomos aqui do Mundos Colidem, elaboramos a seguinte proposta: Como os Mythos de Cthulhu afetariam nossa história e folclore se tivessem existido aqui?

Este projeto, idealizado pelo Lima e já apresentado em duas postagens suas, Nova Amsterdã 1646: O Mythos chega ao Nordeste holandês e Nova Amsterdã 1646: O estranho ocaso do lago da Vila do Bonfim. A ideia é desenvolver um cenário de campanha ambientado inicialmente no Brasil colonial, em nossa cidade, Natal/RN, mais especificamente no período conhecido como invasões holandesas, que inclusive chegou a mudar o nome da capital de nosso estado para Nova Amsterdã — daí o título do cenário ser Nova Amsterdã 1646. E hoje, após um período de hiato para organizar nossas ideias, finalmente estou trazendo esta discussão também aqui para a coluna Espaço Mítico.

O escritor H.P. Lovecraft povoou o imaginário de muita gente, principalmente o de muitos rpgistas, com seus contos de horror cósmico. Nos jogos, essa influência se deu por meio do famoso RPG O Chamado de Cthulhu e dele derivaram os mais diversos materiais de cenários de campanhas e suplementos. Até mesmo o mais famoso cenário de fantasia medieval brasileiro, Tormenta, carrega bastante de sua literatura com seus monstros rubros alienígenas capazes de enlouquecer suas vítimas. Assim, em Nova Amsterdã, o folclore se mistura com os Mythos de Lovecraft, numa amálgama digna dos mais terríveis Shoggoths. Essa fusão nasce de um questionamento:

e se o Mythos tivesse influenciado a cultura brasileira, como seriam nossos monstros?

Na postagem de hoje, trago a vocês justamente um pouco do resultado desta experiência para, quem sabe, levantar algumas discussões daqueles que curtem esta literatura.

Começamos com dois antagonistas que podem ser usados tanto para FAE quanto para Fate, com uma descrição e estatísticas, além de uma breve análise minha sobre o processo criativo deles. As criaturas são as Curacanga e Mapinguari. Percebam que mesmo que algumas das criaturas do folclore não sejam comuns à região inicial do cenário (no caso, o Nordeste), nossa proposta envolve explorar o folclore brasileiro como um todo, pois pretendemos expandir para outros períodos e lugares de nosso país.

Curacanga

Curaganas são servas de Cthunga, um Grande Antigo e elemental do fogo. Mas diferente de suas contrapartes, os Vampiros de Fogo, elas são criadas a partir de rituais, maldições ou outros meios encontrados pelos seus adoradores para unir um Vampiro de Fogo com uma mulher humana. A partir desta ligação abominável, a mulher afetada passa a ser uma hospedeira da entidade (e que muitas vezes desconhece, inclusive, que ele a habita). À noite, sua cabeça se destaca do corpo enquanto dorme e vaga na região, realizando a vontade de Cthunga ou sob as ordens de um cultista. A cabeça destacada tem o rosto desfigurado pelas chamas, muitas vezes ficando apenas uma caveira coberta num manto de fogo vivo. Quando o dia nasce, a cabeça volta ao corpo original, que então torna-se novamente mulher.

Aspectos: Servo de Cthunga, fogo vivo, pequeno e ágil

Ótimo (+4) em: Destruir tudo que toca.

Bom (+3) em: Voar, Sentidos alienígenas

Regular (+1) em: Todo o resto

Façanhas

  • Toque de fogo: Por ser feito de puro fogo, tocar ou ser tocado por uma Curacanga causa dano e pode gerar consequências como em chamas ou queimado.
  • Asas de Fogo: Capacidade de vôo livre.
  • Invulnerabilidade Sobrenatural: Imunidade a qualquer forma mundana de dano (com exceção de sua fraqueza).
  • Vampira de Vigor: Sempre que uma Curacanga matar uma criatura viva, ela drena sua força vital, recebendo o aspecto situacional fortalecido e recebe uma invocação gratuita. Mortes subsequentes geram invocações gratuitas. Enquanto possuir este aspecto, o Curacanga recebe uma caixa de estresse extra que some após 1 hora.
  • Fraqueza: Água, terra ou outras formas de apagar fogo podem ser usados como um meio de causar dano a Curacanga.

Estresse: ☐☐

A lenda da Curacanga (também chamado no Norte de Cumacanga) possui grandes similaridades com uma criatura do Mythos de Cthulhu conhecida como Vampiro de Fogo. Os dois são compostos basicamente por fogo, brincam com o fenômeno do fogo fátuo, voam e são criaturas assustadoras e terríveis. No folclore brasileiro, conta-se que a Cumacanga surge com a lenda do lobisomem, mas com mulheres, em que a sétima filha de uma mulher torna-se tal criatura e que a única forma de parar a maldição é a mãe colocar a sua filha mais velha como madrinha da irmã mais nova. Na nossa abordagem, inserir elementos de estranheza e inexplicabilidade talvez seja o melhor caminho, invalidando o senso comum e suas lendas para revelar uma verdade maior e mais terrível, que seria a influência dos Grandes Antigos. Basicamente, utilizei mais ou menos o que poderiam ser as características principais do Vampiro de Fogo e adicionei detalhes extras que “abrasileiram” a criatura para renovar tanto o Mythos quanto o ser folclórico. Porém, ainda tenho dúvidas se deveria ou não adicionar mais detalhes da Curacanga folclórica, como a mandinga ou simpatia utilizada pelo povo para revelar se uma mulher é uma Curacanga, que diz

Quando alguém se defrontar com um fogo oscilante, se deseja revelar sua identidade humana, ofereça-lhe uma agulha virgem. A primeira mulher que for, na manhã seguinte, pegar a oferta, essa é a Curacanga.

— Anuário do 37º Festival Nacional do Folclore de Olímpia, 2001

Mapinguari

Autor: Ikarow, 2015. <http://fav.me/d959l50>

O Mapinguari é o terror daqueles que vivem ou andam pelas florestas brasileiras, pois ele mata e devora todos que encontra pela frente. É uma criatura humanoide, de estatura gigantesca, coberto de pelos negros, possuindo unhas em forma de poderosas garras, tendo apenas um olho no topo de seu corpo e uma boca imensa que vai da região que deveria ser seu nariz até a altura do estômago. O Mapinguari seria então uma das inúmeras e estranhas proles da deusa exterior Shub-Niggurath, que ao ser invocada em rituais por seus adoradores, fecunda um homem ou uma mulher que carregará sua semente monstruosa. Em um par de dias, a vítima transforma-se em um Mapinguari, que servirá então como protetor dos adoradores de sua mãe. A criatura possui uma fome insaciável, que deixa pelo caminho que passa um rastro de destruição e morte. A criatura ataca de dia, colocando a cabeça de suas vítimas em sua bocarra e mastigando lenta e dolorosamente enquanto vivas para em seguida arrancar pedaços com suas garras e comê-lo aos poucos. Uma tática comum do Mapinguari é dar gritos que lembram sons de desespero de um homem, para atrair vítimas em potencial. É uma criatura extremamente forte, perigosa e frequentemente antagoniza as tribos indígenas inimigas dos cultistas de Shub-Niggurath que vivem próximos a seu covil. Relatos afirmam que a única forma de matar um Mapinguari é atingir a cabeça, mas é uma tarefa tão difícil que os próprios indígenas dizem que é melhor correr e se esconder.

Aspectos: Duro como pedra; Força superior; Fome horripilante

Ótimo (+4) em: Agarrar, Morder, Rasgar com garras, Enganar com gritos

Regular (+1) em: Todo o resto.

Façanhas

  • Couro impenetrável: Devido a grande quantidade de músculos extremamente poderosos e uma couraça dura como rocha, o Mapinguari é praticamente imune a dano, possuindo uma Armadura com valor 4. A armadura ignora qualquer dano físico que seja menor ou igual a 4 de estresse.
  • Mordida aterrorizante: Se o Mapinguari atingir o inimigo com um agarrão, na próxima rodada ele fará um teste para devorar a cabeça de sua vítima com um bônus de +2. Se for bem sucedido, ele automaticamente causa uma consequência de valor igual ao dano causado.
  • Grito humano: O Mapinguari pode imitar o grito de dor ou de ajuda de um ser humano para atrair vítimas em potencial.
  • Fraqueza: Por possuir apenas um olho enorme em sua cabeça, é uma das únicas partes frágeis do Mapinguari. Se um personagem fizer uma ação de Criar Vantagem para atingir o olho, vai poder causar dano, ignorando o couro impenetrável.

Estresse: ☐☐☐☐

Por ser uma criatura imensa, monstruosa e praticamente mutante, acredito que casa muito bem com a ideia da deusa Shub-Niggurath. Esta deusa é a representação da Grande Mãe dentro dos Mythos de Cthulhu, aparecendo em inúmeras culturas humanas matriarcais ou que adoravam entidades de fecundidade, ciclo da vida, plantio e muitos outros. Ela é associada à fêmea, embora a deusa seja ao mesmo tempo macho e fêmea. Imaginei então que cultistas desta deusa poderiam ter incentivado o surgimento desta criatura como uma espécie de protetor, que manteria as tribos indígenas sempre afastadas e temendo confronto com eles. Esta lenda é muito comum no Norte do país e em regiões de extensas matas, apesar de alguns pesquisadores afirmarem que ela tenha surgido numa época mais moderna e entre seringueiros, ela tem uma potencialidade de uso muito grande para deixar de lado neste cenário. Há também relatos de que o monstro surgiu como um conto criado pelos catequizadores para fazer os caçadores temerem não respeitar os dias de resguardo, como dias santos e o domingo, atacando aqueles que insistiam em trabalhar nestes dias.


E então? O que acharam da proposta? Temos pretensões de adicionar mais detalhes a estes antagonistas para que possam ser inseridos com mais veracidade dentro dos Mythos. São ideias em construção que sofrerão ainda diversas mudanças antes de podermos lançar de fato o cenário Nova Amsterdã. Então fiquem ligados, deixem seu comentário aqui embaixo e até a próxima!

Comentários

4 Comentários

  1. Acredito que o nosso folclore apresenta elementos bastante propícios a um amálgama com os temas do Mythos. Apenas como um exemplo, você pode pegar os movimentos sebastianistas no Nordeste (nos quais há registros de sacrifícios humanos) e transformá-los numa espécie de culto aos Antigos (coisa que fiz em um dos contos escritos por mim).

  2. Olá!
    Eu não sou fã dos Mythos, mas achei muito legal as duas criaturas e suas lendas.

    Até and Bye…

  3. Alansays:

    Nossa!!!
    Muito bom,muito bom mesmo.
    caraca gostei bastante….

    • Jokasays:

      Vlw Alan! Muito obrigado por deixar um comentário pra gente. O feedback de vocês é muito importante. Assim que eu conseguir organizar minhas anotações, estarei fazendo uma nova postagem falando sobre o processo de criação do nova amsterdã para FAE. Quanto mais gente lendo e opinando sobre, mais chance temos de elaborar um material bacana. =D
      Abraços!

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