Evolution Pulse: primeiro playtest

No último Calango Lúdico, no dia nove de abril, finalmente tive a oportunidade de fazer um playtest público do Evolution Pulse, o RPG de horror pós-cyberpunk pós-apocalíptico que está em financiamento coletivo no Catarse pela editora estreante Fábrica. Apesar do pouco público devido à ameaça de chuva, contei com a presença de dois jogadores que aguardavam para conhecer Evolution Pulse. Para os personagens prontos, utilizei os modelos de fichas traduzidas para o EP que foram disponibilizadas na página do Catarse, além de criar alguns recursos extras:

  • Os props que usei (imagens e gráficos variados) para ambientar os jogadores no cenário, além de um sumário dos diferentes tipos de abordagens;
  • As fichas de personagem prontas, com dois executores diferentes de cada tipo;
  • Um conjunto de fichas de Hekath variadas, para servirem de oponentes.

No meu planejamento para o one-shot, sabia que ia precisar de algum tempo extra para introduzir o cenário aos jogadores (que felizmente, já tinham alguma experiência em Fate), então desenvolvi uma aventura relativamente simples, mas que pusesse os jogadores para pensar. A história dependia mais das respostas dos jogadores do que qualquer outra coisa. Preparei-me para qualquer combinação de personagens pré-definidos (eu havia trazido várias fichas pronta, já que seria inviável criá-las na hora), mas uma espécie de sinergia entre os dois jogadores acabou levando a um resultado melhor do que eu poderia imaginar.

10º Calango Lúdico - Mesa de Evolution Pulse

O mais curioso foi que cada um escolheu um tipo de Executor bem diferente do outro, e não digo apenas em aparência ou origem, mas na forma como cada um define sua realidade. Rafael escolheu um Hydrah, um dos ciborgues criados por Olympus, enquanto Pedro Henrique decidiu-se por um Hyonos, depois de ficar indeciso entre ele e um Proxy. Os Hydrah são os únicos executores que não são capazes de alterar a realidade. Eles utilizam a Bios, uma sofisticada interface que lhes permite conectar-se, modificar e reparar praticamente todo tipo de tecnologia que encontrarem pela frente, o que inclui incorporá-las no seu corpo. Já os Hyonos não são seres realmente vivos. Os humanos que os controlam estão em um denso sono criogênico, com sua consciência em uma estado de vigília induzido por Eden que os permite criar corpos artificiais que interagem com o mundo.

Mas enquanto os Hydrahs sentem-se conectados com os humanos que protegem — além dos ambientes urbanos que lhe dão matéria-prima para seus poderes de controle de tecnologia — os Hyonoses não pensam duas vezes em sacrificar vidas humanas em prol de um bem maior. Especialmente quando esse bem maior resulta na destruição de um grande número de hekaths.

Hydrah

Azmov, o ciborgue Hydrah de Rafael, tinha feito do Server XD3038 uma espécie de lar, conectando-o com os sistemas de energia e rede de Olympus, aumentando a segurança das pessoas que ainda habitavam nele. Seu dia-a-dia era perambular por corredores apinhados de técnicos, sob o contínuo burburinho de vozes nervosas, ansiosas, cansadas, mas esperançosas. Eles tinham Azmov ao seu lado.

Hyonos

Ziona, por outro lado, era uma caçadora de hekaths, uma inquisidora que buscava qualquer indício da corrupção dos LostHs por Obscura, a intrusão do insólito DNA hekath nos genes humanos. Para ela, o preço em vidas humanos era o menor a ser pago, desde que o resultado fosse o fim dos hekath e da infecção. Tudo que lhe importava era a Voz, a comunicação com Eden que que ordenava suas missões com frases cifradas, como palavras de sabedoria escondidas em enigmas ou metáforas.

E a ordem fora clara: Vá ao Server XD3038 — a Escuridão deve ser trazida para a luz.

O primeiro contato não foi bom. Aproximando-se do entorno do Server, na direção de onde havia mais movimento, Ziona entrou no alcance visual de Azmov, que com um pequeno exército de técnicos, tentava colocar para funcionar um gigantesco drone de serviço, que seria extremamente útil na reconstrução do Server. Isaías, o chefe dos técnicos, expressou sua preocupação com Azmov — Hyonoses nunca eram uma boa notícia. Lembrando-se de seus encontros anteriores com os executores implacáveis, Azmov concordou. Mas foi receber o companheiro de armas, acompanhado por vários de seus drones.

A conversa não foi positiva. Ziona era impossível de ser convencida que a cidade não guardava nenhuma forma de corrupção pela Obscura, por mais que Azmov a assegurasse, com inúmeros relatos de vigilância. Há anos que ele não encontrava a presença de um Hekath a menos de vários quilômetros do Server. Por fim, concordou em acompanhar a hyonos no Server, para evitar que se metesse em confusão (ou a causasse), especialmente agora que a cidade se encontrava indisposta. O primeiro encontro com Isaías atribuiu o aspecto Não Confio nos Hyonoses às suas ações na cidade.

Chegando à praça do mercado, com uma pequena multidão pedindo explicações e Azmov e Isaías (que não iria deixar aquela hyonos andar assim em seu Server), Ziona usou seus sentidos deidcados a encontrar a corrupção hekath e descobriu uma jovem com olhos estranhamente negros tentando passar despercebida entre as sombras das barracas de alimentos. Sem pensar duas vezes, ela ordenou passagem entre as barracas, numa perseguição à moça, que rapidamente foi subjugada e mostrou ter uma infecção por Obscura.

Mas a multidão não concordava com ela.

Foi preciso que Azmov e Isaías acalmassem a população e garantissem a segurança da moça, que se identificou como Arela. A situação ficou tensa quando Ziona materializou sua espada testamento, a lâmina de plasma zunindo destruição no ar, enquanto as pessoas na praça aglomeravam-se, de armas nas mãos — que sabiam inúteis contra a anjo vingadora, mas sua fúria era maior que qualquer razão. Mas as palavras do ciborgue e de Isaías conseguiram evitar o pior, após um acordo com Ziona: a garota seria levada para exames no centro médico do Server, que fora reativado há pouco tempo e se mostrava bastante sofisticado. E ficaria lá, em observação.

A contragosto, a Hyonos aceitou o acordo.

Ela e Azmov seguiram pelo Server em uma espécie de patrulha e caça, com Ziona usando seus aguçados sentidos de inquisidora para localizar outras vítimas de corrupção hekath. Onde havia uma, haviam mais, apesar dos protestos do ciborgue de que aquilo fora um caso isolado. Foi quando uma explosão brutal sacudiu a cidade, retirando vários sistemas do ar. Os dois executores deslocaram-se rapidamente até o epicentro do choque, e encontraram o Domo: o eixo central de recepção e distribuição de energia elétrica e conexão com a rede de Olympus. A carapala externa do resistente prédio parcialmente subterrâneo possuía várias rachaduras, de onde plumas escuras de fumaça escapavam. Azmov conseguiu, depois de algum esforço, entrar em contato com Isaías e com os técnicos de manutenção. Aparentemente, havia ocorrido uma explosão dentro do Domo. Vários técnicos estavam sem comunicar-se, mortos ou feridos. Ziona tinha certeza da presença hekath, mas Azmov ainda tinha suas dúvidas, pelo menos até entrar em contato com o centro médico e descobrir que o momento da explosão foi quase perfeitamente sincronizado com o do exame da garota sob um sofisticado escâner neurológico, enquanto ela se debatia, apavorada e necessitou ser sedada.

No interior do Domo, os corredores de serviço mostravam danos generalizados, com faíscas e arcos voltaicos saltando entre os cabos expostos e vários maquinários ainda ativos, criando o aspecto situacional Alta Tensão em Todo Lugar. Logo encontraram os primeiros corpos, fatiados por lâminas de precisão cirúrgicas, mas — diferente do que era esperado de um ataque hekath — ainda intactos. Não haviam sido consumidos e sua matéria usada para criar mais hekaths.

Depois de muita investigação, descobriram que a infestação havia tomado lugar no centro do distribuidor, causando uma quantidade razoável de dano, mas sem destruí-lo. Aparentemente, algo havia distraído o bando hekath. E foi aí que eles se depararam com a infestação, na forma de um grupo de vermes hekath. O combate foi curto mais brutal, com Ziona usando suas habilidades marciais para fatiar seus oponentes, enquanto Azmov criava armas de feixes de partículas improvisadas com os conduítes de força rompidos das paredes, criando efeitos devastadores sobre os vermes. Além disso, seu controle sobre os drones de serviços, empenhados na reconstrução do Domo, criou várias vantagens, fazendo com que arcos voltaicos surgissem inesperadamente no caminho dos hekath, melhorando suas chances de sobrevivência.

10º Calango Lúdico - Ficha de Evolution Pulse

Finalmente, busando o foco final da infestação, Azmov é comunicado que a garota despertou a fugiu do centro médico, se muita dificuldade, revelando capacidades sobre-humanas no processo. Ziona parecia estar certa, mas ele não queria dar o braço a torcer. A Voz falara de novo com a hyonos, afirmando que A Busca da Luz pela Escuridão Deve Ser Implacável, o que ela interpretou como uma pressa redobrada em destruir a garota e qualquer outro Obscura ou hekath que encontrasse pela frente.

E foi na central secundária de distribuição de energia, seguindo o rastro de destruição hekath, que eles encontraram a gigantesca massa de um verme empenhado em uma lutal desigual contra um rapaz marcadamente consumido pelo Obscura, cujos braços contorciam-se em borrões, movendo-se como chicotes de monofilamento em alta velocidade, defendendo a si e a Arela. Com a chegada dos executores, que inicialmente combateram a criatura ao seu lado, o rapaz pareceu perder parte de seu desespero, mas derrotado o verme, a garota às suas costas, tudo que pôde fazer foi pedir para ser deixado em paz. Azmov percebeu que ele e Arela moravam ali. Controlando a fúria inquisidora de Ziona, ele foi capaz de descobrir que Arela e o rapaz — Kaleb — eram irmãos e foram infectados por Obscura há muito tempo, que foi desenvolvendo-se lentamente. Quando tornou-se impossível esconder suas marcas de mutação das outras pessoas, eles decidiram refugiar-se nas partes abandonadas do velho Domo, onde apenas os drones de manutenção caminhavam, sem prestar atenção a nada que não fosse maquinário.

Mas a garota estava despertando algum tipo de habilidade incomum. Às vezes, quando tinha pesadelos, ou sob o efeito das emoções intensas do despertar da adolescência, ela invocava os hekath, de maneira inconsciente e certa. Kaleb sempre estava lá para destruí-los, seus poderes contrapondo-se às criaturas com a mesma fúria e desespero de seu desejo de proteger a irmã. Isso estava errado, ele perguntou, não temos também o direito e viver enquanto não somos monstros? Enquanto combatemos monstros?

A resposta de Ziona foi materializar sua Espada Testamento, a lâmina mortal de plasma calcinante zunindo, ecoando no recinto fechado.

Mas a Voz falou novamente, iluminando o rosto da Hyonos com dúvida.

A Escuridão Deve Ser Levada à Luz.

Depois de uma longa conversa entre os quatro, Ziona aceitou que levaria Kaled e Arela para Eden, onde poderiam ser estudados e protegidos, ou se demonstrassem ser perigosos demais para si mesmos e para os outros, destruídos. Azmov esperou pela aprovação dos irmãos, que pareciam não acreditar na solução. Ziona fez desaparecer a espada e disse apenas que a Voz está sempre certa, dando as costas e seguindo para Eden.

Azmov sorriu, apenas.

10º Calango Lúdico - Mesa de Evolution Pulse


Eu pensei em uma aventura que tivesse um conflito natural entre os executores e algo mais que os hekath. O plano original era que a população e talvez o próprio Server fossem a fonte deste conflito, impedindo ou dificultando a missão porque ela ia de encontro à sua própria sobrevivência ou ao seu modo de vida. Mas os jogadores, como sempre, criaram uma condição para a qual eu não poderia ter planejado melhor e antagonizaram um ao outro, embora ambos com o mesmo objetivo: destruir os hekaths. Mas para Azmov, esse objetivo não poderia colocar em risco a cidade pela qual ele tanto se esforçara, para manter sua população viva e bem, o que mantinha sua humanidade. Ziona, por outro lado, via qualquer coisa que estivesse entre ela o os hekaths como um obstáculo descartável. Nada era sagrado, exceto a missão. E a missão era o fim, não os meios.

Nesse confronto dos dois surgiu uma dinâmica, nascida entre destruir/preservar o Server e o modus operandi do triângulo de forças dos executores e da população, finalmente chegando ao inesperado dos irmãos Obscuras. Pessoalmente, achei que o final fosse terminar de maneira trágica, mas o jogador de Azmov optou por uma reflexão sobre o verdadeiro significado da mensagem da Voz, que o jogador de Ziona relutou, mas acabou aceitando. Vencer o inimigo algumas vezes significava trazê-lo para seu lado.

Enfim — pessoalmente, eu adorei o cenário, que tenho já há algum tempo, desde que foi lançado em inglês. Mas as regras, um misto de Fate Básico e Fate Acelerado, me ganharam fácil. A única dificuldade que senti foi na variedade dos hekaths, o que me forçou a ter fichas impressas, detalhadas, de seus vários tipos, o que não foi exatamente um suplício. Os confrontos tornaram-se mais fáceis e interessantes na execução, com as façanhas especializadas.

Agora, é só esperar que o financiamento do Evolution Pulse termine logo (com sucesso) e que esses one-shots possam virar uma campanha.

Comentários

2 Comentários

  1. Jokasays:

    Nossa. Foi uma verdadeira tragédia perder este jogo. Espero que eu possa participar do próximo!

  2. Olá!
    Ah, que jogo massa. Que cenário irado. Quero muito que FC seja sucedido para que possa jogar este cenário fascinante.

    Até and Bye…

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