Oficinas Interativas

Olá, Camaradas!

 

Muita polêmica sobre RPG ocorreu nesse curto tempo de existência do ano de 2017 — como assim, curto tempo? Estamos quase no meio do ano. Em termos de tempo humano, os dias estão sendo mais curtos, não sei nem se as medidas de segundos, minutos e horas são as melhores formas de calcular o nosso dia. Como diria meu amigo Leish, são as atividades da adultessência ocupando todo nosso tempo, e pela primeira vez estou rabiscando essas linhas aqui de última hora, restando menos de doze horas para essa postagem ir ao ar. E enquanto estava envolto nesse texto, essa questão — que sempre nos ataca com sucesso crítico — me veio à mente: o tempo. E pretendo esboçar apontamentos em uma postagem futura, onde falaremos sobre o tempo e as atividades de RPG, pensando em como conciliar o hobby com a nossa vida.

Deixando essas deambulações de lado e voltando às polêmicas, em especial uma polêmica bastante antiga — estamos falando da “demonização” do RPG como atividade lúdica. Não é de hoje que os grandes meios de comunicação vêm em uma cruzada contra o RPG e a sua prática. O mais recente ataque é uma associação forçada do RPG com o “jogo da baleia azul”, por meio de uma emissora de TV, que em seu semanário impresso, vinculado por uma instituição religiosa, já vem disparando ataques contra a prática do RPG, levando nesta última semana o seu ataque à TV aberta. A campanha de difamação à prática lúdica pela instituição não tem uma fundamentação, não possui estudo prévio sobre os trabalhos desenvolvidos, especialmente no âmbito educacional, utilizando o RPG (do qual venho colhendo bons frutos). Trata-se de uma campanha baseada no achismo, formulada pelo desconhecimento, preconceito e uma total irresponsabilidade, não tendo o direito de manchar o trabalho de vários educadores no Brasil afora e suas contribuições para o uso da narrativa interativa no processo de ensino e aprendizagem.

Conheci o RPG em 1995, por meio de um amigo que conseguiu um First Quest emprestado; não conhecíamos outros títulos e o que sabíamos eram as “lendas” de que existiam outros grupos de RPGistas no bairro, que queríamos muito encontrar para poder trocar experiências. Esse grupo até hoje continua uma lenda, mas outro foi formado no começo dos anos 2000. No início, éramos doze pessoas, mas em nossa pouca experiência, não estávamos preparados para a caça às bruxas — que ocorreu no fim dos anos 1990 e levou mais da metade do grupo — acompanhada de uma campanha maciça de TV que manipulou a opinião pública sobre a realidade na qual eu estava inserido.

A guerra estava declarada e as bruxas seriam queimadas. Boatos se espalharam por toda a cidade de que livros estavam sendo queimados. Eram mais lendas, mas anos depois ouvi o mesmo relato de duas pessoas e conheci uma terceira que afirmou ter visto os livros queimarem.

O que restou do meu antigo grupo conseguiu achar um reduto, onde permanecemos ocultos e sendo taxados de loucos e satanistas pelo bairro. Um ponto interessante nesse processo, que futuramente pode permitir um debate, é que a imagem “maligna” do RPG ficou associada no imaginário dos moradores do bairro e era reproduzida por aqueles que faziam parte do grupo original, que debandou durante a Caça às Bruxas, repetindo os discursos daqueles adultos mais inflamados no combate ao RPG. Passados mais de vinte anos do ocorrido, os que resistiram como eu e permaneceram no hobby ainda são hostilizados e os jovens que andam no bairro com livros — geralmente sem relação com o RPG — acabam sendo escrachados pelas mesmas pessoas de vinte anos atrás.

Mas o que me proponho aqui é tentar explicar de forma bem simples O que é RPG e como eu utilizo a narrativa interativa nas minhas aulas para melhorar a imersão dos alunos no processo de ensino e aprendizagem.

O que é RPG?

O Role Playing Game (RPG) é um jogo colaborativo e social em que os participantes assumem os papéis de personagens e criam narrativas colaborativamente, de acordo com um sistema de regras, mas onde os jogadores podem improvisar livremente as suas falas e ações. Não tem um roteiro, os jogadores constroem personagens e terão suas características anotadas em fichas, que representam as suas habilidades que o permitem interferir na história a ser contada.

Para se jogar RPG é necessário um grupo de pessoas, lápis, papel, borrachas e um livro de regras. Um dos jogadores assumirá o papel do narrador, que terá a responsabilidade de ler o livro, aprender as regras, entender as características do cenário, e contar a história na qual os jogadores vão interagir. O Joka do Espaço Mítico tem uma série de postagens sobre o papel do narrador, e recomendo a leitura para entender um pouco mais o trabalho do “contador de histórias”.

A maioria dos autores considera que o RPG surgiu na década 1970, com a publicação do Dungeons & Dragons nos EUA, um jogo de fantasia medieval que usava elementos básicos dos jogos de guerra, mas trazia a novidade do controle de um único personagem por jogador, e com influencias da literatura de O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. Mas há controvérsias sobre qual seria o primeiro jogo de RPG, e esse debate ainda vai render por muito tempo e espero que incentivem muitas pesquisas e debates.

Narrativa Interativa

O RPG funciona como um laboratório de realidade simulada, onde o narrador apresenta uma história com uma situação-problema e os jogadores, através das características dos seus personagens, devem interagir na história. Sempre que dou aulas sobre o movimento das cruzadas, devido à sua bagagem cultural, os alunos sempre questionam o porquê de os muçulmanos terem lutado por Jerusalém. Mas quando eles são inseridos no recorte histórico, por meio da narrativa interativa e estão atuando com personagens muçulmanos, eles passam a entender com facilidade os motivos do conflito.

A narrativa interativa é a metodologia do RPG, onde o narrador se torna responsável por contar a história na qual os jogadores irão interagir. Ele também atua como árbitro das regras de forma imparcial, prezando sempre pela justiça e diversão do grupo. Os jogadores, por sua vez, devem interpretar seus personagens de acordo com as características anotadas em sua ficha de personagem. Em uma campanha que tenha uma tribo indígena como ambientação, os jogadores devem interpretar os seus personagens de acordo com os recursos e conhecimentos disponíveis apresentados pelo narrador, que precisa manter a coerência da história — pois todo narrador deseja contar uma história que seja inesquecível para os jogadores, e eles desejam fazer história na sua história.

A narrativa interativa permite que o RPG seja uma ótima ferramenta educativa, pois pelo laboratório de realidade simulada, podemos levar os alunos a vivenciar um determinado fato histórico, e viver simuladamente o contexto histórico e social do período. Fazendo com que vivenciem o desenrolar dos fatos.

Oficinas Interativas

Jogo RPG desde os 14 anos e sempre fui um apaixonado por história. Muitas vezes orientei minhas aventuras para situações históricas, recheando-as de referências ao Egito Antigo — do qual eu sou um apaixonado, com planos de fazer dele um cenário para o Fate Básico — e quando comecei a dar aulas, os velhos projetos adormecidos foram despertados. Enquanto ministrava aulas de História em meados de 2012, iniciei o projeto que utilizava a narrativa interativa para as aulas de história do Rio Grande do Norte, projeto que está gerando frutos.

Em 2014 tive o prazer de trabalhar com Robson Carmo, construindo juntos o projeto para a utilização do RPG no processo de ensino e aprendizagem. Os frutos gerados dessa ação foram o Guerra dos Bárbaros, um cardgame sobre História do RN, que utiliza um baralho comum. O segundo fruto foi o Medievo RPG, que está em fase de finalização e jogos de teste, com a versão final do playtest para sair nas próximas semanas. Em 2016, dei início a uma nova parceria, desta vez com o professor Joka, o que nos levou a escrever o cenário Nova Amsterdã. E ainda nos últimos meses de 2016, sou convidado para coordenar o projeto de inovação pedagógica de uma outra escola que leciono, mais uma vez inseri o RPG, mas dessa vez com o foco em leitura e letramento. As atividades funcionam por meio de oficinas lúdicas que ocorrem na escola, com o foco na disciplina de Ensino Religioso, do qual sou o professor responsável.

Abaixo segue o modelo de duas oficinas que ministro nos níveis Fundamental I; o Projeto de Inovação Pedagógica citado acima ocorre no Fundamental II e a sua apresentação requer uma postagem exclusiva, que compartilharei com vocês nas próximas semanas.

Oficina para Crianças (segundo e terceiro ano)

Objetivo: estimular a leitura, escrita e os conhecimentos prévios dos alunos.

Recursos: folhas de papel oficio, revistas para recortes, tesouras de papel, cola branca, lápis, borracha, lápis de cor e dados de seis lados.

1º Momento: Com as folhas em mãos, pedir para os alunos procurarem figuras nas revistas sobre o que eles queriam ser. Podendo estimular o desenho caso alguns prefiram desenhar. Colar as imagens na folha.

2º Momento: após as imagens escolhidas ou desenhadas, pedir para listarem no verso as coisas que eles acreditam que os seus personagens sabem fazer. Podendo ser palavras, frases ou até desenhos de atividades.

3º Momento: Dividir a turma em grupos de quatro a seis alunos, e apresentar situações problemas que envolvam uma resolução coletiva. Exemplo: eles cuidam de uma fazenda, uma tempestade se aproxima, eles devem unir forças para conseguir colher todas as melancias antes da tempestade. Pedir para eles listarem quais características eles possuem que podem resolver a situação, e cada uma que se encaixe no problema gera um dado para a pilha coletiva. Não esquecer de pedir para que eles interpretem como vão resolver a situação, e estimular o diálogo para que cheguem a um consenso da solução. Sobre a rolagem, pode-se optar por pares e impares, sendo sucessos e erros. Ou cinco e seis como sucesso em um dado de seis lados. Sempre que possível, estimule a resolução sem rolagem de dados, sugerindo custos.

4º Momento: Fazer o feedback da oficina, pedindo para elencarem os aspectos positivos e negativos, e incentivar os alunos a sugerirem as temáticas em que gostariam de participar.

Oficina de Cultura Indígena (quarto e quinto ano)

Objetivo: inserir os alunos como personagens de uma tribo indígena para a vivência e compreensão da religiosidade e cotidiano indígena.

Recursos: cópia do livro do Medievo, fichas em branco, lápis, borracha e dados de seis lados.

1º Momento: explanação sobre “O que é RPG”, apresentação do sistema Medievo e construção de fichas.

2º Momento: divisão da turma em grupos de quatro a seis pessoas, que representarão tribos isoladas, mas não distantes geograficamente — que podem, no desenrolar da sessão, realizar um encontro. As tribos devem fazer elencar os aspectos relevantes para fazer uma rolagem coletiva dos seguintes aspetos da tribo: religião, caça, coleta, defesa e engenho. O grupo deve distribuir os sucessos entre esses aspectos; os que ficarem sem sucessos vão gerar problemas que devem ser solucionados, como um grupo que não investiu nas defesas da sua tribo, pode ter uma onça rondando aos arredores e aterrorizando as crianças. Ou ao negligenciarem a religião, podem fazer com que os deuses enviem uma tempestade que vai transbordar o rio e danificar as casas da aldeia, levando os alimentos na enchente. Mediante o transcorrer da história, tribos podem se encontrar e trabalhar coletivamente.

3º Momento: Fazer o feedback da oficina, pedindo para elencarem os aspectos positivos e negativos, e incentivem os alunos a sugerirem que temáticas gostariam de participar.

Projeto de Inovação Pedagógica

Conhecido como PiP a escola na qual leciono tem como objetivo promover atividades lúdicas que envolvam a leitura e o letramento. A proposta do RPG para o PiP é formar grupos dentro do ambiente escolar, e direcionar as aventuras com bases nos conteúdos lecionados nas disciplinas, e estimular a produção de contos e pinturas sobre as narrativas e os personagens criados. Hoje, as atividades contam com quatro alunos narradores e seus respectivos grupos, que jogam autonomamente nas quintas e sextas-feiras.

Produções

O Medievo é a primeira produção com base nos projetos, em sua proposta tem como objetivo ser um sistema de fácil acesso, e regras simples e que possa ser imprimida e distribuída aos alunos, e que utiliza dados de seis lados que podem ser encontrados em supermercados. Ele tem uma pegada narrativista, utilizando a Baixa Idade Média como cenário. Nova Amsterdã é uma proposta com base nos contos de Lovecraft, mas ambientado no período da dominação holandesa no Nordeste do Brasil, utilizando o sistema Fate Acelerado.


Enfim, espero que ao apresentar os trabalhos que desenvolvo com o RPG no âmbito educacional, esse texto venha a estimular aqueles que desejam desenvolver os seus projetos, e também aos que não conheciam o RPG e estão tendo seus primeiros contatos.

E que esclareça as mentes daqueles que reproduzem discursos de ódio produzidos pela mídia.

 

Até Breve!

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raphalimma

Nascido em 23 de setembro de 1982. Filho de Mércia, Filho de Emília, Natalense, RPGista, Marxista, Cientista da Religião, Historiador, Professor, Pai de Marianna e Theo, Casado com Daniella, Egiptologo, amante da obra de Tolkien e Lovecraft, apreciador de uma boa cerveja. Entusiasta de sistemas narrativistas, enamorando o fate e suas possibilidades. Autor do Medievo RPG. Em constante pesquisa sobre a inserção da narrativa interativa na educação. Ainda procurando uma finalidade para esse mundo.

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